07/06/2022

06/05/2022

Lanzarote

    “Eu não gosto de mim. Tenho pouca simpatia por mim e ainda menos estima; além disso, não sou muito interessante. Conheço as minhas principais características desde há muito e acabei por me cansar delas. Em adolescente, e mesmo já jovem adulto, falava de mim, pensava em mim, era como se estivesse cheio de mim; já não é o caso. Ausentei-me dos meus pensamentos e basta a perspectiva de ter que contar qualquer episódio pessoal para me sentir imergir num tédio semelhante à catalepsia. Quando sou absolutamente obrigado a isso, minto.
No entanto, paradoxalmente, nunca me arrependi de me ter reproduzido. Poder-se-á mesmo dizer que amo o meu filho e que o amo mais ainda cada vez que reconheço nele vestígios dos meus próprios defeitos. Vejo-os manifestarem-se no tempo, com um determinismo implacável, e isso alegra-me. Alegro-me sem pudor por ver repetirem-se, e assim eternizarem-se, características pessoais que nada têm de especialmente louvável; que muitas vezes até são desprezíveis; que, na verdade, não têm outro mérito senão serem minhas.”
Michel Houellebecq – “Lanzarote” - 2000

23/04/2022

Steve Mackay

Steve Mackay & The Radon Ensemble - Deslize (Braga) - Abril 2004

01/04/2022

Van Gogh, o Suicidado da Sociedade

    Só pintor, van Gogh, e nada mais,

    nada de filosofia, mística, ritual, psicurgia

ou liturgia,

    nada de história, literatura ou poesia,

    estão pintados os seus girassóis de ouro trigueiro; estão pintados como girassóis e pronto,

mas agora temos de voltar a van Gogh para

entender um girassol ao natural, tal como se

não pode já, para compreender uma tempestade ao natural

    um céu tempestuoso,

    uma planície ao natural,

    deixar de voltar a van Gogh.

Antonin Artaud - “Van Gogh, o Suicidado da Sociedade” - 1975

16/03/2022

A China Fica ao Lado

    “Noite de Ano Novo chinês. Meio oculto no vão da porta, e imperturbável, o herbanário assiste ao espectáculo das ruas: homens e mulheres passando, eufóricos, com o ramo de pessegueiro erguido alto, como meninos pequenos segurando a amarra dos papagaios. Vão ao pagode apresentar oferendas, trocam presentes entre si, compram bolos pesados e enjoativos, comem e bebem, jogam jogos de azar, amam. Nessa noite o herbanário não existe. Morrer fica para o dia seguinte. Morrer ou sofrer – que ainda é pior. O herbanário, pessimista e ateu, não tem nada com aquilo, nada com eles, de momento. Não o vêem nem o querem ver. Que masque as suas folhas e rumine os seus lúgubres pensamentos na sombra da loja. Rebentam com mais estrondo os panchões. O ar vai ficar completamente limpo à meia-noite, hora marcada para o nascimento do ano, quando o relógio da praça deixar cair solenemente as doze badaladas. Kung Hei Fat Choi – Festas Felizes!”
Maria Ondina Braga - “A China Fica ao Lado” - 1976

23/02/2022

Submissão

    “A humanidade não me interessava, até me desagradava muito, não considerava de todo os humanos meus irmãos, e ainda menos se tivesse em conta uma fração mais restrita da humanidade, por exemplo os meus compatriotas ou os meus antigos colegas. No entanto, num certo sentido desagradável, tinha de reconhecer que esses seres humanos eram meus semelhantes, mas era justamente essa semelhança que me fazia fugir deles; era necessário uma mulher, era a solução clássica, experimentada, uma mulher é sem dúvida humana mas representa um tipo ligeiramente diferente da humanidade, dá à vida um certo perfume de exotismo. Huysmans teria posto a questão quase nos mesmos termos, a situação não evoluíra desde essa altura senão de maneira informal e negativa, por lenta desagregação, por nivelamento das diferenças – mas mesmo isso tinha sem dúvida sido largamente exagerado.”
Michel Houellebecq – “Submissão” - 2015

11/02/2022

Patti Smith

Patti Smith, 1977, by Lynn Goldsmith

15/01/2022

A Arte e a Morte

“Também havia uma arcada de sobrancelhas como céu todo a passar por baixo, verdadeiro céu de violação, rapto, lava, tempestade, raiva, quer dizer céu teologal ao máximo. Um céu em arco alto como a trombeta dos abismos, como cicuta bebida em sonhos, um céu contido em todos os frascos da morte, o céu de Heloísa acima de Abelardo, um céu de apaixonado suicídio, um céu que tinha as raivas todas do amor.

Era um céu de pecado protestante, pecado que o confessionário retinha, pecado como os que pesam na consciência dos padres, verdadeiro pecado teologal.

E agradava-me.

Ela servia numa taberna de Hoffmann, mas criadinha devassa e ramelosa, devassa e mal lavada criadinha. Passava por água os pratos, fazia despejos e camas, varria quartos, sacudia baldaquinos e despia-se à frente da janela como todas as criadas de todos os contos de Hoffmann.”

Antonin Artaud – “A Arte e a Morte” - 1985

06/01/2022

L'amour va bien...merci

STRA - Avenida de Camilo (Porto) - 2020

02/01/2022

O Velho e o Mar

   “Nessa tarde, havia no Terraço um grupo de turistas e, olhando para a água, entre latas de cerveja vazias e barracudas mortas, uma mulher viu a enorme espinha branca com a portentosa cauda à ponta, que arfava e balouçava na maré, enquanto o vento leste levantava um mar picado e cadenciado, fora da entrada do porto. 
   - Que é aquilo? – perguntou ela a um criado, e apontava para a longa espinha dorsal do grande peixe, que era apenas lixo à espera de que o levasse a maré. 
   - Tiburon – respondeu o criado – Tubarão. – Queria explicar-lhe o que acontecera.” 
Ernest Hemingway – “O Velho e o Mar”  – 1952

19/12/2021

[O HOMEM-ÁRVORE]

Quem foi Baudelaire?

Quem foram Edgar Poe, Nietzsche, Gérard de Nerval?

Corpos

que comeram

digeriram,

dormiram,

ressonaram uma vez por noite,

cagaram

entre 25 e 30 000 vezes,

e em face de 30 ou 40 000 refeições,

40 mil sonos,

40 mil roncos,

40 mil bocas acres e azedas ao despertar,

tem cada qual de apresentar 50 poemas,

o que realmente não é de mais,

e o equilíbrio entre a produção mágica e a produção automática

                está muito longe de ser mantido,

está todo ele desfeito,

mas a realidade humana, Pierre Loeb, não é isto.

Nós somos 50 poemas,

o resto não somos nós mas o nada que nos veste,

se ri para começar de nós,

vive de nós a seguir.

Ora este nada nada é,

não é qualquer coisa

mas alguns.

Quero dizer alguns homens.

Animais sem vontade nem pensamento próprio,

ou seja sem dor própria,

que em si não aceitam vontade de dor própria

e para forma de viver mais não encontraram

que falsificar a humanidade.

Antonin Artaud - "Eu, Antonin Artaud" - 1988

30/11/2021

O Fogo e as Cinzas

   “Após meia hora de marcha, parou num cruzamento, junto dum sobreiral. Era por ali que Zabela havia de passar se fosse ao Monte da Carrusca. Meteu o carro debaixo da copa rala de um enorme sobreiro, de forma a que as muares ficassem menos expostas ao calor violento do Sol, e sentou-se no chão com as costas apoiadas ao tronco da árvore. Sempre atento ao caminho que entrava pelo sobreiral, acendeu um cigarro, impassível e imóvel, de expressão parada, aguardando, sem que o seu espírito obstinado desse mostras de impaciência ou o corpo de cansaço. 
    Àquela hora, na agreste solidão dos campos, sequer uma asa cruzava o céu esbranquiçado e trémulo de lume. No entanto, pressentia-se vagamente o aparecer da tarde: a calma esmorecia um pouco e a sombra dos troncos alongava-se pela terra gretada e poeirenta. A espaços, as mulas sacudiam a cabeça, afastando as moscas, e as guiseiras retiniam, vibrantes, quebrando violentamente o profundo silêncio.
   De súbito, António de Alba Grande levantou-se; Zabela aparecera ao longe, por entre os sobreiros. Foi esconder-se atrás do carro – e, mal a rapariga chegou ao cruzamento, saiu a cortar-lhe o passo: 
     - Aonde vais?» 
Manuel da Fonseca – “O Fogo e as Cinzas”  – 1953

09/11/2021

As Terras de Poente

    “Os tempos desesperados da perseguição e da fuga, a emboscada que se adivinhava mesmo a tempo, a rápida facada na viela, o que se sente depois do assassinato, sentimentos doces e limpos como os que se experimentam ao renascer, a atenção constante, cada noite uma morada diferente, a fadiga extrema, as mudanças de identidade: comerciante, religioso, santo, académico, pedinte, médico, homem sem ocupação, viajante da insegura estrada das alianças que se trocam por dá cá aquela palha, compromissos parciais, lealdades traiçoeiras. (Ele sabe que este homem o vai trair. É imperioso não haver barulho.) Casas seguras que não são seguras. (Ele sabe que não pode lá voltar esta noite: montaram uma emboscada.)
Ele está seguro em Alamofora. Ninguém lhe pode tocar. Só que a segurança é a mais perigosa de todas as situações.”
William S. Burroughs - "As Terras de Poente" - 1987