29/05/2021

O Coração das Trevas

   “Uma noite entrei na cabina, de vela na mão, e surpreendi-me quando o ouvi falar com voz ligeiramente trémula: - «Estou deitado aqui, nas trevas, à espera da morte.» A luz não se encontrava a mais de um pé dos seus olhos. Esforcei-me por murmurar: - «Que disparate!», e debrucei-me para ele, pregado ao chão. 
   Eu nunca tinha visto, nem espero tornar a ver, coisa parecida com a transformação que se dera nos seus traços. Não, emocionado eu não estava. Estava fascinado. Como se um véu se tivesse rasgado. No marfim daquele rosto vi uma expressão de orgulho sombrio, indomável poder, de abjecto terror – de um desespero intenso e sem esperança. Naquele supremo instante, de integral conhecimento, estaria ele a reviver a vida em todo o pormenor, com os seus desejos, tentações e renúncias? Deu um grito sussurrado a uma imagem qualquer, a uma visão qualquer – gritou duas vezes, um grito que não passava de sopro… 
    «O horror! O horror!» 
Joseph Conrad - "O Coração das Trevas"  - 1902

28/02/2021

Plataforma

“Há scooters que descem Naklua Road e levantam uma nuvem de pó. Já é meio-dia. Vindas dos bairros periféricos, as prostitutas vêm iniciar o seu trabalho nos bares do centro da cidade. Não penso sair de casa hoje. Mas talvez o faça ao final da tarde, para engolir uma sopa comprada numa das lojas junto ao cruzamento.
Quando renunciamos à vida, as últimas pessoas com quem contactamos são os comerciantes. Pela minha parte, limito-me a dizer algumas palavras em inglês. Não falo tailandês, o que cria em meu redor uma barreira triste e asfixiante. É muito provável que não tenha chegado a compreender a Ásia, o que, de resto, não tem qualquer importância. Podemos habitar um mundo sem o compreendermos, basta-nos ser capazes de obter alimentos, carícias e amor. Em Pattaya, a alimentação e as carícias são baratas, de acordo com os critérios ocidentais e mesmo com os asiáticos. Sobre o amor, sinto grande dificuldade em falar.”
Michel Houellebecq – “Plataforma” - 2001

21/12/2020

Censura Já!!

“Para que diabos ter uma estante pejada de livros, se a Google tem todos os conteúdos de todos os livros e dispersou-os pelo mundo através da sua magnânima beneficência? Os livros são pesados, sujos, poeirentos e desintegram-se nos nossos pulmões. Para quê possuir enciclopédias quando há todo um wiki-universo? E por aí fora. Para quê haver lojas de discos, livrarias, lojas de vídeo, áreas comerciais quiosques, cinemas, teatros, óperas, bibliotecas, escolas, parques, edifícios governamentais, salas de reunião, etc., etc.? Os espaços públicos, os mercados e interagir com outras pessoas é algo primitivo, pasto de germes e coisa perigosa. Bem vistas as coisas, tudo pode ser feito online, seus primatas! A única que agora uma pessoa precisa é de uma Whole Foods, de uns bares da moda e de um aeroporto para voar até ao Myanmar, antes que fique manco.

Os Senhores dos computadores querem controlar tudo e peça fundamental para controlar todas as coisas é controlar a perceção dos outros. A perceção de como as coisas são, a maneira como as coisas funcionam e o que aconteceu na História são importantes, assim, eles podem moldar a sua versão dos eventos e controlar a narrativa – controlar as mentes das massas para as transformar em melhores e mais complacentes consumidores/servas.

As “tralhas” que os “acumuladores” retêm, todavia, podem contar a história que refuta ou desafia, de certo modo, a versão dos eventos contada pelos suseranos dos computadores. A coleção de discos, de revistas ou de jornais pode revelar algumas pistas em relação a um  movimento social ou tendência, moda ou sensibilidade que desafiam o estrangulamento imbecil das consciências, perpetrado por esses “senhores”. Um arroto de resistência. Uma pista para uma saída. Um sinal de que a vida não depende verdadeiramente do acesso de alta velocidade da internet. A fisicalidade do objeto infere que, outrora, as coisas tiveram significado, que cada coisa não é só fazer um ”post” equívoco e sem significado no Tumblr.”
Ian F. Svenonius – “Censura Já!!” - 2015

17/10/2020

Aniquilação

“Considerava plausível que, na polícia, não se tivesse ligado ao facto, por exemplo, de os dois lugares, Auschwitz e Oswiecim, serem idênticos. Todos devíamos pôr-nos de acordo sobre isso, se recordássemos a incultura devastadora, a estupidez, a barbaridade e a malvadez, e a sua propagação contagiosa e aceitação oficial no país – mas, por assim dizer, tudo isso era apenas uma questão lateral e de apatia, como quem há muito já desistiu de melhorar, ou modificar, de qualquer maneira, o estado de coisas da nação. Pois, se não fosse assim, a tatuagem na coxa não se teria apresentado, então, como um grande enigma: porque se sabia que, nos poucos bebés nascidos no decurso da história de Auschwitz, o número de prisioneiro era tatuado na coxa, por ser demasiado pequeno o antebraço dos bebés.”
Imre Kertész – “Aniquilação” - 2003

14/09/2020

Belos e Malditos

"Gostava dos Jardins Johston, onde dançavam, em que um negro trágico proporcionava uma música cheia de ansiedade e dolorida num saxofone, até que tudo se tornava numa selva encantada de ritmos bárbaros e risos esfumaçados, e esquecer a passagem do tempo monótono nos doces suspiros e ternos murmúrios de Dorothy era a consumação de todas as aspirações, de todo o contentamento.
Havia uma vaga tristeza nela, uma evasão consciente de tudo, excepto das minúcias agradáveis da vida. Os seus olhos cor de violeta continuavam, durante horas, aparentemente vazios, como se, indiferente e sem pensamentos, dormisse como uma gata ao sol. Anthony imaginava o que a mãe, cansada e desanimada, pensaria deles e se nos momentos de menos optimismo compreenderia a realidade das suas relações.
Nas tardes de domingo passeavam pelo campo, descansando por vezes na relva seca, nas proximidades de um bosque. Ali, junto dos pássaros e das violetas, à sombra fresca das árvores, indiferentes ao calor, falavam, intermitentemente, num monólogo sonolento, sem sentido e sem respostas."
F. Scott Fitzgerald - “Belos e Malditos” – 1922

29/08/2020

100 Livros Portugueses do Século XX

1. A Cidade e as Serras (1901) – Eça de Queirós
2. Gente Singular (1909) – Manuel Teixeira Gomes
3. Marânus (1912) – Teixeira de Pascoaes
4. Húmus (1917) – Raul Brandão
5. Pedro o Cru (1918) – António Patrício
6. Terras do Demo (1919) – Aquilino Ribeiro
7. Clepsidra (1920) – Camilo Pessanha
8. Ensaios (1920) – António Sérgio
9. Canções (1922) – António Botto
10. Poemas de Deus e do Diabo (1925) – José Régio
11. A Selva (1930) – Ferreira de Castro
12. Charneca em Flor (1931) – Florbela Espanca
13. Gladiadores (1934) - Alfredo Cortês
14. Mensagem (1934) – Fernando Pessoa
15. A Criação do Mundo (1937) – Miguel Torga
16. Sedução (1937) – José Marmelo e Silva
17. Nome de Guerra (1938) – Almada Negreiros
18. Contos Bárbaros (1939) – João de Araújo Correia
19. Gaibéus (1939) – Alves Redol
20. Solidão / Notas do Punho de Uma Mulher (1939) – Irene Lisboa
21. Apenas uma Narrativa (1942) – António Pedro
22. O Barão (1942) – Branquinho da Fonseca
23. Historiazinha de Portugal (1943) -  Adolfo Simões Müller
24. Noite Aberta aos Quatro Ventos (1943) – Adolfo Casais Monteiro
25. Mau Tempo no Canal (1944) – Vitorino Nemésio
26. O Caminho da Culpa (1944) – Joaquim Paço D’Arcos
27. O Dia Cinzento (1944) – Mário Dionísio
28.  Poesia (1944) – Sophia de Mello Breyner Andresen
29. Poesias (1944)– Álvaro de Campos
30. Odes (1946) – Ricardo Reis
31. Poemas (1946) – Alberto Caeiro
32. Poesias (1946) – Mário de Sá-Carneiro
33. A Toca do Lobo (1947) – Tomás de Figueiredo
34. Ossadas (1947) – Afonso Duarte 
35. As Mãos e os Frutos (1948) – Eugénio de Andrade
36. Poesia I (1948) - José Gomes Ferreira
37. Retalhos da Vida de Um Médico (1949) – Fernando Namora
38. A Secreta Viagem (1950) – David Mourão-Ferreira
39. O Fogo e as Cinzas (1951) – Manuel da Fonseca
40. Pelo Sonho é que Vamos (1953) – Sebastião da Gama
41. A Sibila (1954) – Agustina Bessa-Luís
42. História da Literatura Portuguesa (1955) – António José Saraiva / Óscar Lopes
43. Movimento Perpétuo (1956) – António Gedeão
44. Dimensão Encontrada (1957)– Natália Correia
45. Pena Capital (1957) – Mário Cesariny
46. Teatro (1957) – Bernardo Santareno
47. A Origem (1958) – Graça Pina de Morais
48. Léah (1958) – José Rodrigues Miguéis
49. No Reino da Dinamarca (1958) – Alexandre O’Neill
50. A Cidade das Flores (1959) – Augusto Abelaira
51. Bastardos do Sol (1959) – Urbano Tavares Rodrigues
52. Tanta Gente, Mariana… (1959) - Maria Judite de Carvalho
53. A Colher na Boca (1961) – Herberto Helder
54. Felizmente Há Luar! (1961) – Luís de Sttau Monteiro
55. O Palhaço Verde (1961) – Matilde Rosa Araújo
56. Rumor Branco (1962) – Almeida Faria
57. Xerazade e os Outros (1964) – Fernanda Botelho
58. A Torre da Barbela (1964) – Ruben A.
59. Praça da Canção (1965) – Manuel Alegre
60. Estou Vivo e Escrevo Sol (1966) – António Ramos Rosa
61. Teoria da Literatura (1967) – Vítor Aguiar e Silva
62. O Delfim (1968) – José Cardoso Pires
63. A Noite e o Riso (1969) – Nuno Bragança
64. As Aves (1969) – Gastão Cruz
65. Maina Mendes (1969) – Maria Velho da Costa
66. Peregrinação Interior (1971) – António Alçada Baptista
67. A Raiz Afectuosa (1972) – António Osório
68. Novas Cartas Portuguesas (1972) – Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa
69. Os Sítios Sitiados (1973) – Luiza Neto Jorge
70. Paisagens Timorenses com Vultos (1974) – Ruy Cinatti
71. Toda a Terra (1976) – Ruy Belo
72. O Que Diz Molero (1977) – Dinis Machado
73. Finisterra (1978) – Carlos de Oliveira
74. O Labirinto da Saudade (1978) – Eduardo Lourenço
75. Rosa, Minha Irmã Rosa (1979) - Alice Vieira
76. Sinais de Fogo (1979) – Jorge de Sena
77. Instrumentos para a Melancolia (1980) – Vasco Graça Moura
78. Uma Exposição (1980) – João Fernandes Jorge, Joaquim Manuel Magalhães, Jorge Molder
79. O Silêncio (1981) – Teolinda Gersão
80. Livro do Desassossego (1982) – Fernando Pessoa / Bernardo Soares
81. Memorial do Convento (1982) – José Saramago
82.  Os Universos da Crítica (1982) – Eduardo Prado Coelho
83. Para Sempre (1983) – Virgílio Ferreira
84. Amadeo (1984) – Mário Cláudio
85. Um Falcão no Punho – Diário I (1985) – Maria Gabriela Llansol
86. Adeus, Princesa (1986) – Clara Pinto Correia
87. As Moradas 1 & 2 (1987) – António Franco Alexandre
88. O Medo (1987) – Al Berto
89. Gente Feliz com Lágrimas (1988) – João de Melo
90. O Pequeno Mundo (1988) – Luísa Costa Gomes
91. A Ilha dos Mortos (1991)– Luís Filipe Castro Mendes
92. A Musa Irregular (1991) – Fernando Assis Pacheco
93. Um Canto na Espessura do Tempo (1992) – Nuno Júdice
94. Um Deus Passeando Pela Brisa da Tarde (1994) – Mário de Carvalho
95. Vulcão (1994) – Luís Miguel Nava
96. Guião de Caronte (1997) – Pedro Tamen
97. Geórgicas (1998) – Fernando Echevarria
98. O Vale da Paixão (1998) – Lídia Jorge
99. Cenas Vivas (2000) – Fiama Hasse Pais Brandão
100. Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura (2000) – António Lobo Antunes
*Jornal Público - 27 abr 2002

18/08/2020

Extensão do Domínio da Luta

"Num sistema económico perfeitamente liberal, alguns acumulam fortunas consideráveis; outros improdutivos estão no desemprego e na miséria. Num sistema sexual perfeitamente liberal, alguns têm uma vida exótica e excitante; outros estão reduzidos à masturbação e à solidão. O liberalismo económico é uma extensão do domínio da luta, a sua extensão a todas as idades da vida e a todas as classes da sociedade. Do mesmo modo que o liberalismo sexual é a extensão do domínio da luta, a sua extensão acontece em todas as idades da vida e a todas as classes da sociedade. No plano económico, Raphaël Tisserand, pertence à classe dos vencedores; no plano sexual, à dos vencidos. Há quem ganhe em ambos os lados, há também quem perca nos dois. As empresas disputam entre si alguns jovens licenciados; as mulheres disputam alguns jovens homens; os homens disputam algumas mulheres; o problema e a agitação são consideráveis."
Michel Houellebecq – "Extensão do Domínio da Luta" - 1994

03/05/2020

De que falamos quando falamos de amor

"Nessa manhã, ela despeja whiskey Teacher sobre a minha barriga e lambe-o todo. À tarde, tenta atirar-se pela janela.
- Holly, - digo eu -, isto não pode continuar assim. Isto tem de parar!
Estamos sentados no sofá de uma das suites do andar de cima. Havia uma série delas vagas por onde escolher, mas precisávamos de uma suite, de um sítio onde nos pudéssemos mexer à vontade e onde fossemos capazes de conversar. Por isso, naquela manhã, tínhamos fechado o escritório do motel e tínhamos ido para uma das suites do andar de cima.
- Duane – diz ela -, isto está a dar cabo de mim.
Estamos a beber whiskey Teacher com água e gelo. Tínhamos dormido um pouco entre a manhã e a tarde. Depois ela tinha saltado para fora da cama, em roupa interior, ameaçando atirar-se pela janela. Tive de a agarrar. Estávamos apenas num segundo andar, mas mesmo assim…"
Raymond Carver – "De Que Falamos Quando Falamos de Amor" - 1974

10/04/2020

Pela Estrada Fora

“De maneira que na América quando o Sol se põe e me sento no velho molhe em escombros do rio a contemplar os céus intermináveis sobre Nova Jérsia e pressinto toda aquela terra bruta que rola numa inacreditável massa única e imensa até à Costa Oeste, toda aquela estrada que se estende, todas as pessoas que sonham na sua imensidão, e sei que a esta hora no Iowa Vénus a estrela da tarde deve estar a curvar-se e a derramar suas pálidas centelhas sobre a pradaria, o que acontece mesmo antes do cair da noite absoluta que abençoa a terra, escurece todos os rios, circunda os cumes do Oeste e aconchega a dobra da derradeira margem, e ninguém, é que ninguém sabe o que vai acontecer a ninguém além dos tristes andrajos da velhice, penso no Neal Cassady, penso até no Velho Neal Cassady o pai, que não chegamos a encontrar, penso no Neal Cassady.”
Jack Kerouac – "Pela Estrada Fora – O Rolo Original" – 1957

15/01/2020

A Metamorfose

“Enquanto iam conversando o senhor e a senhora Samsa repararam quase ao mesmo tempo, ao olharem para a filha, como ela foi ganhando vivacidade, como ultimamente, apesar de todos os contratempos, que a deixaram com aquela palidez na face, ela tinha desabrochado e se tornara uma rapariga bonita e desejável. À medida que iam ficando mais silenciosos, e num entendimento tácito de troca de olhares, pensavam que ia sendo altura de lhe arranjar um bom marido. E sentiram-se como que confirmados nos seus sonhos quando, chegados ao termo da viagem, a filha se levantou em primeiro lugar, evidenciando toda a frescura jovem do seu corpo.”
Franz Kafka – “A Metamorfose” – 1915