13/07/2026

22/06/2026

Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico

“A grande originalidade da agricultura mediterrânea consiste, porém, na produção, em larga escala, do vinho e do azeite.
A vinha encontra aqui o optimum da sua cultura: o ar seco, a temperatura mais constante durante os meses de maturação do fruto, fazem com que ela se defenda melhor dos seus inimigos naturais. Os maiores produtores de vinho do mundo, excepto a França, são os países mediterrâneos e o lugar dele nas exportações é essencial.
Estes vinhos, que se conhecem por nomes eufónicos, ricos de álcool, perfumados, luminosos, fortes e contrastados como a paisagem onde se criaram, têm na grande variedade das bebidas estimulantes ou refrescantes um lugar à parte, raro e nobre. O homem do povo bebe sempre, em toda a parte, e sob todos os pretextos, os vinhos comuns. No Inverno o vinho aquece e dá conforto, que tantas vezes falta nas casas; no Verão refresca, ajuda a digestão, aguça o apetite que decresce pelos grandes calores. A cultura da vinha ultrapassa hoje, e muito, os limites do mundo mediterrâneo. Mas pode dizer-se que onde ela chega e o consumo do vinho é ainda corrente, chega também alguma coisa mais que recorda o Sul.”
Orlando Ribeiro - "Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico" - 1987 (5.ª edição)

03/05/2026

Hell's Angels

"A atracção que os Angels exercem amplamente sobre a sociedade é merecedora de consideração. Ao contrário da maior parte dos outros rebeldes, os Angels desistiram da esperança de que o mundo irá mudar para eles. Eles assumem, perante a evidência, que as pessoas que dirigem a máquina social não se interessam por motards revoltados e reconciliaram-se com a ideia de serem uns falhados. Mas, em vez de falharem calmamente, um por um, aliaram-se a um tipo de lealdade impensada e saíram do padrão, para o bem e para o mal. Poderão não ter uma resposta, mas pelo menos mantêm-se de pé."
Hunter S. Thompson - "Hell's Angels" - 1966

22/03/2026

The Puppeteer

Fortunino Matania (1881-1963). Aguarela e lápis, 460 x 390 mm. Colecção privada.

01/03/2026

Revolta Contra o Mundo Moderno

"Quando o último resíduo da força vinda do alto e o da raça do espirito se tiverem esgotado nas gerações sucessivas, não resta mais nada: já nenhum leito contém dentro de si a torrente, que se disperde em todas as direcções. Sobrevém o individualismo, o caos, a anarquia, a hybris humanista, a degeneração em todos os aspectos. O dique rompeu-se.
Mesmo que subsista a aparência de uma grandeza antiga, basta um choque mínimo para fazer ruir um Estado ou um Império. O que poderá substitui-lo será a sua inversão arimânica, o Leviathan moderno omnipresente, um sistema colectivo mecanizado e «totalitário»."
Julius Evola - "Revolta Contra o Mundo Moderno" - 1934

31/12/2025

Três Mulheres

"Também agora, de quando em quando, falava palavras despreocupadas, mas só durante o tempo que os cavalos descansavam na estrebaria; chegava à noite e partia de manhã ou só ficava de matinas a trindades. Confiava-se nele como uma coisa que a pessoa traz consigo. Se rimos, ri também, se caminhamos, caminha connosco, se apalpamos com a mão, sentimo-la; mas se alguma vez lhe pegamos e a encaramos, esta muda e olha para longe. Se alguma vez se tivesse demorado mais, a verdade é que teria de ser aquilo que era."
Robert Musil - "Três Mulheres" - 1924

26/11/2025

Contos Exemplares

“Nas avenidas, nas tílias, nas varandas, no barulho dos passos sobre as ruas de saibro e areia, dos passos que faziam rolar as pequenas pedras soltas, no mar, igual a um búzio repetindo o ressoar de passados temporais, e até no chão, nas mesas, nas cadeiras, parecia estar suspensa a espera de um regresso.
E à medida que a noite ia avançando, à medida que quase toda a gente se ia indo embora, à medida que se ia fazendo tarde, a espera ia-se tornando quase consciente, quase visível. Dir-se-ia que o tempo perdido ia surgir e ser tocado.
E as pessoas iam-se embora e as salas iam ficando vazias, passavam no ar interrogação e silêncio, como se qualquer coisa, qualquer coisa obscuramente desejada e prometida, não tivesse acontecido.”
Sophia de Mello Breyner Andresen - "Contos Exemplares" - 1962

13/11/2025

05/11/2025

Walt

"e dá- lhe no realejo com este discorno tonto que eu já começava a sentir os arrancos de um miserável enjoo terrestre, vendo à minha frente , não o lateiro, sim o vero Belzebu em pessoa de enxofre, que dementres pela cara avaliou certamente o quanto me eu reputava capaz de mandá-lo levar onde os macacos enfiam as nozes ou expressão afim, e pois que a verdade transluz nas faces menos brilhantes lá vai ele à vida dele, esquecendo-nos para ali mudos, estúpidos, rejeitados de pai e mãe, principalmente estúpidos que é uma posição de pés cansativa como o raio."
Fernando Assis Pacheco - "Walt" - 1978

02/10/2025

O Mapa e o Território

"Nunca gostara de música, e parecia que a detestava mais que nunca; perguntou fugazmente a si mesmo o que o levara a lançar-se numa representação artística do mundo, ou mesmo pensar que uma representação artística do mundo era possível, pois o mundo era tudo menos um tema de emoção artística, o mundo apresentava-se em absoluto como um dispositivo racional, tão desprovido de magia como de particular interesse. Ligou a Autoroute FM, que se limitava a fornecer informações concretas: houvera acidentes para os lados de Fountainbleau e de Nemours, a marcha lenta continuaria provavelmente até Paris.
Estava-se no domingo 1.º de Janeiro, pensou Jed, não era apenas o termo do fim-de-semana mas também o de um período de férias, e o princípio de um novo ano para toda aquela gente que regressava, lentamente, provavelmente furiosa com a lentidão do trânsito, que chegaria agora às fronteiras dos arredores de Paris dali a algumas horas e que depois de uma curta noite voltaria ao seu lugar – subalterno ou proeminente – no sistema de produção nacional."
Michel Houellebecq - 'O Mapa e o Território' - 2010

25/09/2025