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21/09/2026

Antigos Mestres

"Nós confiamos toda a vida nos grandes espíritos e nos chamados Antigos Mestres, assim disse Reger, e eles desiludem-nos depois profundamente, porque não correspondem à sua finalidade no momento decisivo. Acumulamos como tesouros os grandes espíritos e os Antigos Mestres e pensamos que os podemos usar para os nossos fins no momento decisivo da sobrevivência, o que não significa senão abusar deles para os nossos fins, e verificamos depois que isso foi um erro terrível. Enchemos o nosso cofre espiritual com esses grandes espíritos e Antigos Mestres e recorremos a eles no momento decisivo para a vida; mas, quando abrimos esse cofre espiritual, ele está vazio, esta é que é a verdade, encontramo-nos diante desse cofre vazio e vemos que estamos sós e efectivamente na maior pobreza, assim disse Reger. O homem entesoura a vida inteira em todos os domínios e no fim vê-se sem nada, assim disse Reger, também no que respeita à sua riqueza espiritual. Que enorme riqueza espiritual eu acumulei, assim disse Reger no Ambassador, e no fim vejo-me absolutamente sem nada."
Thomas Bernhard - "Antigos Mestres" - 1985

23/08/2026

O Colapso

"Caminhámos até casa dele, mas no trajeto ele disse-me que precisava de fazer uma pausa. Parou numa tabacaria e eu fiquei à espera no exterior; quando saiu, o meu irmão trazia nas mãos três ou quatro raspadinhas, uns quadradinhos de cartão de cores estridentes.
Era algo que se tornaria sistemático nele, uma forma de obsessão e adição. Durante os meses que se seguiram, eu ia constatá-lo, o meu irmão compraria cada vez mais dessas raspadinhas na esperança de ganhar uma quantia impensável e de escapar à sua própria vida com esse dinheiro, de romper com a maldição da sua existència. Se os seus sonhos não se tinham concretizado, talvez o acaso ainda o pudesse salvar.
Em todo o caso, o retrato do meu irmão nessa altura da sua vida assemelha-se a este: um homem de pé na rua a raspar num cartão multicolor, os olhos injetados de esperança e de loucura, o lábio inferior mordiscado pelos dentes de cima. Enquanto raspava, eu tinha a sensação de que nada o poderia atingir. Eu poderia ter gritado, ou pronunciado insultos, ele não me teria ouvido - ele estava sozinho, sozinho com o seu Destino.
Raspou então os cartões que tinha nas mãos, uns a seguir aos outros, ganhava quantias minúsculas, com as quais comprava novos cartões, entrava e saía da tabacaria, até ao momento em que perdeu totalmente e já não tinha mais dinheiro nem raspadinhas vencedoras.
Encolheu os ombros, «Bom, não se pode ganhar sempre»."
Édouard Louis - "O Colapso" - 2024

05/08/2026

29/07/2026

A Missa do Galo

"Um velho com um djellaba branco saiu de casa e ficou de pé a olhar para os músicos. Os tambores iniciaram o seu ritmo lento, ele curvou-se e começou a arrastar os pés para trás e para diante sobre os paralelepípedos.
À medida que os tambores aumentavam de ritmo, os pés do velhote deixavam de se arrastar; as pernas pareciam saltar agora sob um impulso próprio. Agarrado pelo homem que estava atrás de si, retorcia-se até à extremidade da faixa que trazia à volta da cintura. Tinha os olhos fixos no fogo para onde desejava lançar-se. A música aumentou de volume, os músicos começaram a golpear o chão com as bordas dos seus benadit e o frenesim do velho crescia. O rosto mudava constantemente de expressão, como se distorcido por ondas de água que o atingissem. Entrava assim nos domínios do santo que o levaria do mundo visível a muito além, a esse lugar onde a sua alma se purificaria.
Quando, por fim, caiu no chão, os homens como se fossem um só, apressaram-se a afastá-lo do fogo."
Paul Bowles - "A Missa do Galo - Contos" - 1985

22/06/2026

Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico

“A grande originalidade da agricultura mediterrânea consiste, porém, na produção, em larga escala, do vinho e do azeite.
A vinha encontra aqui o optimum da sua cultura: o ar seco, a temperatura mais constante durante os meses de maturação do fruto, fazem com que ela se defenda melhor dos seus inimigos naturais. Os maiores produtores de vinho do mundo, excepto a França, são os países mediterrâneos e o lugar dele nas exportações é essencial.
Estes vinhos, que se conhecem por nomes eufónicos, ricos de álcool, perfumados, luminosos, fortes e contrastados como a paisagem onde se criaram, têm na grande variedade das bebidas estimulantes ou refrescantes um lugar à parte, raro e nobre. O homem do povo bebe sempre, em toda a parte, e sob todos os pretextos, os vinhos comuns. No Inverno o vinho aquece e dá conforto, que tantas vezes falta nas casas; no Verão refresca, ajuda a digestão, aguça o apetite que decresce pelos grandes calores. A cultura da vinha ultrapassa hoje, e muito, os limites do mundo mediterrâneo. Mas pode dizer-se que onde ela chega e o consumo do vinho é ainda corrente, chega também alguma coisa mais que recorda o Sul.”
Orlando Ribeiro - "Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico" - 1987 (5.ª edição)

03/05/2026

Hell's Angels

"A atracção que os Angels exercem amplamente sobre a sociedade é merecedora de consideração. Ao contrário da maior parte dos outros rebeldes, os Angels desistiram da esperança de que o mundo irá mudar para eles. Eles assumem, perante a evidência, que as pessoas que dirigem a máquina social não se interessam por motards revoltados e reconciliaram-se com a ideia de serem uns falhados. Mas, em vez de falharem calmamente, um por um, aliaram-se a um tipo de lealdade impensada e saíram do padrão, para o bem e para o mal. Poderão não ter uma resposta, mas pelo menos mantêm-se de pé."
Hunter S. Thompson - "Hell's Angels" - 1966

01/03/2026

Revolta Contra o Mundo Moderno

"Quando o último resíduo da força vinda do alto e o da raça do espirito se tiverem esgotado nas gerações sucessivas, não resta mais nada: já nenhum leito contém dentro de si a torrente, que se disperde em todas as direcções. Sobrevém o individualismo, o caos, a anarquia, a hybris humanista, a degeneração em todos os aspectos. O dique rompeu-se.
Mesmo que subsista a aparência de uma grandeza antiga, basta um choque mínimo para fazer ruir um Estado ou um Império. O que poderá substitui-lo será a sua inversão arimânica, o Leviathan moderno omnipresente, um sistema colectivo mecanizado e «totalitário»."
Julius Evola - "Revolta Contra o Mundo Moderno" - 1934

31/12/2025

Três Mulheres

"Também agora, de quando em quando, falava palavras despreocupadas, mas só durante o tempo que os cavalos descansavam na estrebaria; chegava à noite e partia de manhã ou só ficava de matinas a trindades. Confiava-se nele como uma coisa que a pessoa traz consigo. Se rimos, ri também, se caminhamos, caminha connosco, se apalpamos com a mão, sentimo-la; mas se alguma vez lhe pegamos e a encaramos, esta muda e olha para longe. Se alguma vez se tivesse demorado mais, a verdade é que teria de ser aquilo que era."
Robert Musil - "Três Mulheres" - 1924

26/11/2025

Contos Exemplares

“Nas avenidas, nas tílias, nas varandas, no barulho dos passos sobre as ruas de saibro e areia, dos passos que faziam rolar as pequenas pedras soltas, no mar, igual a um búzio repetindo o ressoar de passados temporais, e até no chão, nas mesas, nas cadeiras, parecia estar suspensa a espera de um regresso.
E à medida que a noite ia avançando, à medida que quase toda a gente se ia indo embora, à medida que se ia fazendo tarde, a espera ia-se tornando quase consciente, quase visível. Dir-se-ia que o tempo perdido ia surgir e ser tocado.
E as pessoas iam-se embora e as salas iam ficando vazias, passavam no ar interrogação e silêncio, como se qualquer coisa, qualquer coisa obscuramente desejada e prometida, não tivesse acontecido.”
Sophia de Mello Breyner Andresen - "Contos Exemplares" - 1962

05/11/2025

Walt

"e dá- lhe no realejo com este discorno tonto que eu já começava a sentir os arrancos de um miserável enjoo terrestre, vendo à minha frente , não o lateiro, sim o vero Belzebu em pessoa de enxofre, que dementres pela cara avaliou certamente o quanto me eu reputava capaz de mandá-lo levar onde os macacos enfiam as nozes ou expressão afim, e pois que a verdade transluz nas faces menos brilhantes lá vai ele à vida dele, esquecendo-nos para ali mudos, estúpidos, rejeitados de pai e mãe, principalmente estúpidos que é uma posição de pés cansativa como o raio."
Fernando Assis Pacheco - "Walt" - 1978

02/10/2025

O Mapa e o Território

"Nunca gostara de música, e parecia que a detestava mais que nunca; perguntou fugazmente a si mesmo o que o levara a lançar-se numa representação artística do mundo, ou mesmo pensar que uma representação artística do mundo era possível, pois o mundo era tudo menos um tema de emoção artística, o mundo apresentava-se em absoluto como um dispositivo racional, tão desprovido de magia como de particular interesse. Ligou a Autoroute FM, que se limitava a fornecer informações concretas: houvera acidentes para os lados de Fountainbleau e de Nemours, a marcha lenta continuaria provavelmente até Paris.
Estava-se no domingo 1.º de Janeiro, pensou Jed, não era apenas o termo do fim-de-semana mas também o de um período de férias, e o princípio de um novo ano para toda aquela gente que regressava, lentamente, provavelmente furiosa com a lentidão do trânsito, que chegaria agora às fronteiras dos arredores de Paris dali a algumas horas e que depois de uma curta noite voltaria ao seu lugar – subalterno ou proeminente – no sistema de produção nacional."
Michel Houellebecq - 'O Mapa e o Território' - 2010

30/07/2025

Para Acabar de Vez com Eddy Bellegueule

“Depois tive de trabalhar no duro, e aí fiquei e nunca fiz mais nada. Nem viagens, nem nada. Passei a minha vida toda a arrumar a casa e a limpar a merda dos miúdos e a merda dos velhos de quem tomo conta. Só fiz asneiras. Ela pensava ter cometido erros, ter vedado o caminho, sem verdadeiramente o desejar, a um destino melhor, uma vida mais fácil e mais confortável, longe da fábrica e da preocupação permanente (ou antes: a angústia permanente) de não gerir como devia o orçamento familiar – um único passo em falso podia conduzir à impossibilidade de comer no final do mês. Ela não compreendia que a sua trajetória, aquilo a que chamava os seus erros, fazia, pelo contrário, parte de um conjunto de mecanismos perfeitamente lógicos, quase regulados previamente, implacáveis. Não se dava conta de que a sua família, os seus pais, os seus irmãos, irmãs, até os seus filhos, e a quase totalidade dos habitantes da aldeia, tinham conhecido os mesmos problemas, que aquilo a que chamava, portanto, erros não era na realidade senão a mais perfeita expressão da ordem normal das coisas.”
Édouard Louis - “Para Acabar de Vez com Eddy Bellegueule” - 2014

16/07/2025

Pan

“Sinto-me contente por estar só, por ninguém poder ver os meus olhos. Estou encostado à parede de rocha em segurança, sabendo que ninguém me consegue ver pela retaguarda. Uma ave desce em voo picado sobre a aresta da falésia com um grito requebrado; nesse mesmo instante, um pedregulho ali perto solta-se e rola até ao mar. Eu permaneço imóvel naquele sítio por um momento, cedendo às minhas inquietações; sinto um frémito quente de conforto interior por estar ali agradavelmente abrigado, enquanto a chuva se precipita sem cerimónias à minha volta. Abotoo o meu casaco, agradecendo a Deus pelo calor que me proporciona. O tempo corre mais um pouco. Eu acabo por adormecer.”
Knut Hamsun - “Pan” - 1894

10/06/2025

Trabalhos e Paixões de Benito Prada

“Foi assim: a guerra acabou, um homem matou a tiro o presidente Sidónio Pais, e Veleda, de luto como muitas outras mulheres por todo o país, despiu a blusa de setineta e a saia no quarto de Benito Prada, que a achou mais fogosa ainda que Do Céu, para ser desflorada num queixume sem lágrimas que se confundiu com o riso e a música. Nunca o galego ouvira retratar esta maneira de uma mulher se vir cantando.
Achou-a linda, linda e bárbara. Veleda, órfã de pai, declarou que o seu maior gosto era ter um filho de um homem com princípios. Benito alugou casa em Montarroio, instalaram-se, compraram mobílias, uma camilha com braseira e um fogão a lenha, de um quarto interior ele fez escritório mas não punha lá os pés: todas as horas livres, mesmo as do almoço, de que nem queria ouvir falar, eram gastas em jogos de amor.”
Fernando Assis Pacheco - "Trabalhos e Paixões de Benito Prada" - 1993

13/04/2025

A Linha de Sombra

 
"A tarde pusera-se extremamente mortiça. Durante vários dias seguidos, surgiam nuvens a pouca distância, volumes brancos em volutas enegrecidas, tocando as águas, imóveis, quase sólidas, e não obstante, mudando de aspecto de momento a momento. Por altura do cair da noite, regra geral, desapareciam. Mas naquele dia estavam como que à espera do sol posto, que cintilou incandescente e se foi extinguindo numa labareda vagarosa antes de submergir por inteiro. Com a sua pontualidade fatigada, as estrelas reacenderam-se por cima das borlas da mastreação, enquanto a atmosfera permanecia, contudo, asfixiante e parada."
Joseph Conrad - "A Linha de Sombra" - 1917

23/02/2025

A Um Deus Desconhecido

"A calma voltou a apossar-se dele e o medo desapareceu. «Vou subir ao rochedo e dormir um pouco», disse. Sentiu uma pequena dor no pulso e ergueu o braço para ver o que era. Tinha-se cortado numa fivela da sela; o pulso e a palma da mão sangravam. Olhando a ferida, a calma tornou-se mais firme em volta dele e a solidão separou-o do bosque e do resto do mundo. «Pois vou subir ao rochedo», disse. Trepou-lhe cuidadosamente pelo flanco íngreme até que ficou estendido sobre o musgo alto e fofo do cimo do rochedo. Depois de descansar uns momentos, agarrou de novo na faca e, com cuidado, suavemente, abriu as veias do pulso. A dor, a princípio, foi aguda, mas em breve esta sensação se atenuou. Joseph olhava o sangue que borbotava e ia escorrendo sobre o musgo e ouvia o clamor do vento em torno do bosque. O céu estava ficando cinzento. O tempo rolou e Joseph ficava cinzento também. Estava deitado de lado, com o pulso estendido, e baixou os olhos para a longa cordilheira negra do seu corpo. Este começou a tornar-se enorme e leve. Subiu ao céu, e dele começou a cair chuva em torrentes. «Eu devia ter sabido», suspirou Joseph. «Eu sou a chuva.»"
John Steinbeck - "A Um Deus Desconhecido" - 1933

27/01/2025

O Último Cabalista de Lisboa

"O Rossio abria-se como uma ferida infetada inçado de enxames de pessoas vociferantes. Apinhavam-se em volta de carruagens enfeitadas, giravam pelas grandes arcadas do Hospital de Todos-os-Santos, debruçavam-se em risadas das varandas e dos beirais das janelas. As gaivotas descreviam grandes círculos no céu, soltando gritos agudos. Um maltrapilho dançava, fazendo com que o pus das suas pústulas cheias de crostas lhe escorresse para os pés. «Mordido por uma tarântula», gritou-me uma velha de pele curtida. «Não pode parar, nem sequer para aquilo!» E riu-se até se engasgar com um furioso ataque de tosse.
Acima das cabeças da multidão, viam-se subir colunas de fumo espesso em frente da Igreja dos Dominicanos. Foi o calor da emoção que me fez avançar. Voltar atrás nessa altura seria como fugir a Deus em pessoa. Ou do Demónio no momento em que ataca. E só os santos possuem esse poder."
Richard Zimler - "O Último Cabalista de Lisboa" - 2013

01/11/2024

Cheio de Vida

“Passei a palma da mão no mesmo sítio. Quase desmaiei quando os dois altos me pressionaram a mão. Então era verdade: tínhamos concebido um monstro. Cambaleei até ao piso de baixo. Na pequena divisão onde tínhamos o telefone, junto à cozinha, naquele recanto, fiquei de pé, no escuro, com a cabeça contra a parede, e comecei a chorar de novo.
Agora muitas coisas eram claras, o passado era revelado como um caixote do lixo que se despeja. Porque não era culpa da Joyce. A sua vida tinha sido pura, imaculada. Mas os anos pré-maritais de John Fante foram anos insensatos com namoros confusos. Não faltava motivo para corar; houvera pecados, pecados graves, e, algures neste remoinho nefasto, o castigo fora semeado e agora estava na altura de ceifar a colheita maldita.”
John Fante – “Cheio de Vida” - 1952

01/10/2024

Olá, América!

“Wayne tratou de manter o olhar na paisagem que o rodeava – uma infindável sucessão de pequenas cidades poeirentas, e, pelo meio, depressões salinas – o terreno ideal para artemísias e erva-dos-burros. Apressou as mulas. Quanto mais depressa deixassem para trás as viaturas ali paradas a enferrujar, melhor. O seu olhar agora treinado já se apercebia das movimentações dos escorpiões, da cascavel escondida debaixo de um autocarro e que a sua aproximação deixara alerta ou de um monstro-de-gila que os cascos dos cavalos tinham vindo incomodar. Menos de um quilómetro adiante, um solitário milhafre ia rondando um desprecavido roedor do deserto. Sob um céu de metal fundido, a América parecia embalsamada na poeira, naftalinada na areia branca, à espera de um sopro poderoso que a ressuscitaria.”
J. G. Ballard – “Olá, América!” - 1981