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15/01/2022

A Arte e a Morte

“Também havia uma arcada de sobrancelhas como céu todo a passar por baixo, verdadeiro céu de violação, rapto, lava, tempestade, raiva, quer dizer céu teologal ao máximo. Um céu em arco alto como a trombeta dos abismos, como cicuta bebida em sonhos, um céu contido em todos os frascos da morte, o céu de Heloísa acima de Abelardo, um céu de apaixonado suicídio, um céu que tinha as raivas todas do amor.

Era um céu de pecado protestante, pecado que o confessionário retinha, pecado como os que pesam na consciência dos padres, verdadeiro pecado teologal.

E agradava-me.

Ela servia numa taberna de Hoffmann, mas criadinha devassa e ramelosa, devassa e mal lavada criadinha. Passava por água os pratos, fazia despejos e camas, varria quartos, sacudia baldaquinos e despia-se à frente da janela como todas as criadas de todos os contos de Hoffmann.”

Antonin Artaud – “A Arte e a Morte” - 1985

09/11/2021

As Terras de Poente

    “Os tempos desesperados da perseguição e da fuga, a emboscada que se adivinhava mesmo a tempo, a rápida facada na viela, o que se sente depois do assassinato, sentimentos doces e limpos como os que se experimentam ao renascer, a atenção constante, cada noite uma morada diferente, a fadiga extrema, as mudanças de identidade: comerciante, religioso, santo, académico, pedinte, médico, homem sem ocupação, viajante da insegura estrada das alianças que se trocam por dá cá aquela palha, compromissos parciais, lealdades traiçoeiras. (Ele sabe que este homem o vai trair. É imperioso não haver barulho.) Casas seguras que não são seguras. (Ele sabe que não pode lá voltar esta noite: montaram uma emboscada.)
Ele está seguro em Alamofora. Ninguém lhe pode tocar. Só que a segurança é a mais perigosa de todas as situações.”
William S. Burroughs - "As Terras de Poente" - 1987

17/10/2020

Aniquilação

“Considerava plausível que, na polícia, não se tivesse ligado ao facto, por exemplo, de os dois lugares, Auschwitz e Oswiecim, serem idênticos. Todos devíamos pôr-nos de acordo sobre isso, se recordássemos a incultura devastadora, a estupidez, a barbaridade e a malvadez, e a sua propagação contagiosa e aceitação oficial no país – mas, por assim dizer, tudo isso era apenas uma questão lateral e de apatia, como quem há muito já desistiu de melhorar, ou modificar, de qualquer maneira, o estado de coisas da nação. Pois, se não fosse assim, a tatuagem na coxa não se teria apresentado, então, como um grande enigma: porque se sabia que, nos poucos bebés nascidos no decurso da história de Auschwitz, o número de prisioneiro era tatuado na coxa, por ser demasiado pequeno o antebraço dos bebés.”
Imre Kertész – “Aniquilação” - 2003

18/08/2020

Extensão do Domínio da Luta

"Num sistema económico perfeitamente liberal, alguns acumulam fortunas consideráveis; outros improdutivos estão no desemprego e na miséria. Num sistema sexual perfeitamente liberal, alguns têm uma vida exótica e excitante; outros estão reduzidos à masturbação e à solidão. O liberalismo económico é uma extensão do domínio da luta, a sua extensão a todas as idades da vida e a todas as classes da sociedade. Do mesmo modo que o liberalismo sexual é a extensão do domínio da luta, a sua extensão acontece em todas as idades da vida e a todas as classes da sociedade. No plano económico, Raphaël Tisserand, pertence à classe dos vencedores; no plano sexual, à dos vencidos. Há quem ganhe em ambos os lados, há também quem perca nos dois. As empresas disputam entre si alguns jovens licenciados; as mulheres disputam alguns jovens homens; os homens disputam algumas mulheres; o problema e a agitação são consideráveis."
Michel Houellebecq – "Extensão do Domínio da Luta" - 1994

25/11/2010

04/11/2009

Ostia, 02 Nov 1975

Ostia (the Death of Pasolini)
There 's honey in the hollows
And the contours
of the body
A sluggish golden river
A sickly golden trickle
A golden, sticky trickle
You can hear
the bones humming
And the car reverses over
The body in the basin
In the shallow sea-plane basin.
And the car reverses over
And his body rolls over
Crushed from the shoulder
You can hear the
Bones humming
Singing like a puncture
Killed to keep
the world turning
Throw his bones over
The White Cliffs
of Dover
Into the sea
The Sea of Rome
And the bloodstained
coast
Of Ostia
Leon like a lion
Sleeping in
the sunshine.
Lion lies down.
"Out of the strong
Came forth sweetness."
Throw his bones over
The White Cliffs
of Dover
And murder me
In Ostia.
The Sea of Rome.
You can hear his bones humming.
Throw his bones over
The White Cliffs
of Dover
And into the sea
The Sea of Rome
Then murder me,
In Ostia.
COIL: "Horse Rotorvator" (Force & Form/K.422/Some Bizarre, 1987)

09/06/2009

Crianças Pagãs

“Durante alguns minutos, ela ficou a ouvir os ruídos nocturnos, lá fora, antes de se virar de lado e ficar mais perto dele, suficientemente perto para lhe ver o rosto, suficientemente perto para pousar o coto do braço no peito dele. Se ele lhe pegar…
Ele pegou-lhe, pegou na extremidade dura e cheia de cicatrizes do braço dela e começou a acariciá-la ao de leve com os dedos. Ela ergueu a cabeça e ele pôs o braço à volta dela.
Chantelle disse:
- Já sei porque é que não fala comigo.
Ela esperou e ele perguntou:
- Porquê?
- Porque se vai embora para não voltar.
Desta vez, quando esperou e ele não disse nada, ela levantou a cabeça e pôs a sua boca contra a dele.”
Elmore Leonard - "Crianças Pagãs" - 2000

16/05/2009