08/02/2023

Poly Styrene

Foto: Falcon Stuart

28/01/2023

Fogo Grande

“Esperei por Sílvia todo aquele dia e, como sempre, passei pelos estados de alma que já conhecia do tempo em que estive sozinho e a procurava por toda a parte. Agora, porém, Sílvia estava realmente, por todo o lado, e passei o dia muito mais perto dela. A casa, o pátio e o campo continham uma Sílvia imutável e antiga, em que podia pensar sem ansiedade nem doçura. Bastava-me sentir e absorver quanto era grande, diferente e familiar aquela realidade em que ela nascera e à qual, embora debatendo-se até porque se debatia consigo própria, acabava por pertencer cada vez mais. Poder dispensá-la, pois chegara a tocar qualquer coisa do mais profundo da sua presença, libertava-me e saciava-me.”
Cesare Pavese & Bianca Garufi – “Fogo Grande” - 1959

11/01/2023

Talk Talk

Foto: Brian Griffin

18/12/2022

A Queda

"Nessas noites, antes, nessas manhãs, pois a queda produz-se ao romper da alva, eu saio e parto, numa marcha impetuosa, ao longo dos canais. No céu lívido as camadas de penas adelgaçam-se, as pombas sobem um pouco, uma claridade rósea anuncia, ao nível dos telhados, um novo dia da minha criação. No Damrak, o primeiro elétrico faz tinir a sua campainha no ar húmido e toca a alvorada da vida nesta extremidade desta Europa, onde, no momento, centenas de milhões de homens, meus súbditos, se arrastam penosamente da cama, com a boca amarga, a fim de irem para o trabalho sem alegria. Então, pairando em pensamento por cima de todo este continente que me está submetido sem o saber, bebendo a luz de absinto que sobe, ébrio enfim de ruins palavras, sinto-me feliz, sinto-me feliz, proíbo-o de não acreditar que me sinto feliz, que morro de felicidade!
Oh, sol, praias, ilhas sob os alísios, juventude cuja lembrança desespera!"
Albert Camus - "A Queda" - 1956

10/11/2022

PIER PAOLO PASOLINI - Centenário 1922-2022


Pier Paolo Pasolini - Centenário 1922-2022; Acrílico e tinta china s/ papel de Primobansky - Porto

28/10/2022

Intervenções

"Consciente de que a vida dos homens se desenrola num ambiente biológico, técnico e sentimental (quer dizer, só muito acessoriamente político), consciente de que essa vida tem por desígnio o esforço para alcançar objectivos privados, ele rejeitará instintivamente qualquer convicção política vincada. O homem revoltado, o resistente, o patriota, o agitador surgir-lhe-ão antes de tudo como indivíduos desprezíveis, movidos pela estupidez, pela vaidade e pelo desejo de violência.
Contrariamente ao reaccionário, o conservador não tem nem heróis nem mártires; se não salva ninguém também não faz vitimas, não haverá nele nada, em suma, de particularmente heroico; mas será, é um dos seus encantos, um individuo muito pouco perigoso.”
Michel Houellebecq - “Intervenções” - 2021

27/08/2022

05/08/2022

Realismo Capitalista

“Todavia, a catástrofe ambiental apenas figura na cultura do capitalismo tardio como uma espécie de simulacro, sendo as suas verdadeiras implicações para o capitalismo demasiado traumáticas para que o sistema as assimile. A importância das criticas ecologistas é o facto de sugerirem que, longe de ser o único sistema político-económico viável, o capitalismo está de facto talhado para destruir todo o meio humano. A relação entre capitalismo e desastre ecológico não é uma coincidência nem um acidente: a «necessidade de um mercado em constante expansão» do capital, o seu «fetiche do crescimento», significa que o capitalismo se opõe pela sua própria natureza a qualquer conceito de sustentabilidade.”
Mark Fisher – “Realismo Capitalista” - 2020

16/07/2022

Uma Abelha na Chuva

“de súbito, qualquer lembrança remota parecida com aquilo, dias de chuva, a cabeça fora da janela, a boca aberta a aparar as goteiras do telhado, um perfil de criança recortado ao longe; a cinza da morrinha embaciava a distância, o tempo, mas havia por baixo de tudo, ao fundo das coisas, esse fulgor inapagável, o seu próprio perfil de criança, e muito mais, uma ternura dispersa pela casa paterna, por campos e pessoas, por bichos e estrelas; o coração talhado numa grande pureza já perdida, a alma ainda livre da condenação do fogo, o corpo onde não acordara ainda o medo à morte, porque lhe era fácil então estender-se para fora da janela e beber alegremente das goteiras. Agora não. O vento impelia o marulho da treva, vinha salpicá-lo duma poeira húmida de ruínas; as costas doíam-lhe de encontro ao peitoril; mudou de posição, fez um esforço para se endireitar, fincando as mãos no rebordo da janela, e ficou cambaleante, de olhos abertos para a noite, negra de lado a lado: o luar nunca existiu, as estrelas também não, mas onde diabo terei eu visto já luar e estrelas, se nada vejo agora? O vento arrastava a poeira, apagava os astros, sumia tudo e na escuridão as coisas fermentavam. Apodreciam. Sabia-lhe mal a boca, um soluço flatulento e choco agitava-o. Deu-lhe vontade de chorar, chorar apenas, sem saber porquê. Esfregando os olhos, compreendeu confusamente que estava diante da janela aberta, entontecido e indisposto, que tinha a noite pela frente e que a noite lhe fazia bater os dentes devagar, cheio de frio.”
Carlos de Oliveira - “Uma Abelha na Chuva” – 1953 / 1980

12/06/2022

Fahrenheit 451

“Faz a pergunta a ti mesmo. Que procuramos nós acima de tudo, neste país? As pessoas querem ser felizes, não achas? Não lhes ouviste dizer isso toda a vida? Quero ser feliz, declara cada um. E, bem, são eles felizes? Não velamos nós para que estejam sempre em movimento, sempre distraídos? Não vivemos senão para isso, não é a tua opinião? Para o prazer, para a excitação? E deves concordar que a nossa civilização fornece um e outra à saciedade. 
- Sim. 
- Os negros não gostam de Little Black Sambo. Queimemo-lo. A Cabana do Pai Tomás não agrada aos brancos. Queimemo-la. Um tipo escreveu um livro sobre o tabaco e o cancro do pulmão? Os fumadores de cigarros ficaram consternados. Queimemos o livro. A serenidade, Montag, a paz, Montag. Liquidemos os problemas, ou melhor ainda, lancemo-los no incinerador; os enterros são tristes e pagãos? Eliminemo-los igualmente. Cinco minutos após a morte, todo o individuo vai a caminho do Grande Crematório, por meio dos Incineradores servidos por helicóptero em todo o país. Dez minutos após a morte, o homem nada mais é do que um grão de poeira negra. Não vaticinemos acerca dos indivíduos a golpes de inconsoláveis memórias. Esqueçamo-los. Queimemo-los, queimemos tudo. O fogo é brilhante, o fogo é limpo.” 
Ray Bradbury – “Fahrenheit 451” – 1953

07/06/2022

06/05/2022

Lanzarote

    “Eu não gosto de mim. Tenho pouca simpatia por mim e ainda menos estima; além disso, não sou muito interessante. Conheço as minhas principais características desde há muito e acabei por me cansar delas. Em adolescente, e mesmo já jovem adulto, falava de mim, pensava em mim, era como se estivesse cheio de mim; já não é o caso. Ausentei-me dos meus pensamentos e basta a perspectiva de ter que contar qualquer episódio pessoal para me sentir imergir num tédio semelhante à catalepsia. Quando sou absolutamente obrigado a isso, minto.
No entanto, paradoxalmente, nunca me arrependi de me ter reproduzido. Poder-se-á mesmo dizer que amo o meu filho e que o amo mais ainda cada vez que reconheço nele vestígios dos meus próprios defeitos. Vejo-os manifestarem-se no tempo, com um determinismo implacável, e isso alegra-me. Alegro-me sem pudor por ver repetirem-se, e assim eternizarem-se, características pessoais que nada têm de especialmente louvável; que muitas vezes até são desprezíveis; que, na verdade, não têm outro mérito senão serem minhas.”
Michel Houellebecq – “Lanzarote” - 2000

23/04/2022

Steve Mackay

Steve Mackay & The Radon Ensemble - Deslize (Braga) - Abril 2004