03/05/2020

De que falamos quando falamos de amor

"Nessa manhã, ela despeja whiskey Teacher sobre a minha barriga e lambe-o todo. À tarde, tenta atirar-se pela janela.
- Holly, - digo eu -, isto não pode continuar assim. Isto tem de parar!
Estamos sentados no sofá de uma das suites do andar de cima. Havia uma série delas vagas por onde escolher, mas precisávamos de uma suite, de um sítio onde nos pudéssemos mexer à vontade e onde fossemos capazes de conversar. Por isso, naquela manhã, tínhamos fechado o escritório do motel e tínhamos ido para uma das suites do andar de cima.
- Duane – diz ela -, isto está a dar cabo de mim.
Estamos a beber whiskey Teacher com água e gelo. Tínhamos dormido um pouco entre a manhã e a tarde. Depois ela tinha saltado para fora da cama, em roupa interior, ameaçando atirar-se pela janela. Tive de a agarrar. Estávamos apenas num segundo andar, mas mesmo assim…"
Raymond Carver – "De Que Falamos Quando Falamos de Amor" - 1974

10/04/2020

Pela Estrada Fora

“De maneira que na América quando o Sol se põe e me sento no velho molhe em escombros do rio a contemplar os céus intermináveis sobre Nova Jérsia e pressinto toda aquela terra bruta que rola numa inacreditável massa única e imensa até à Costa Oeste, toda aquela estrada que se estende, todas as pessoas que sonham na sua imensidão, e sei que a esta hora no Iowa Vénus a estrela da tarde deve estar a curvar-se e a derramar suas pálidas centelhas sobre a pradaria, o que acontece mesmo antes do cair da noite absoluta que abençoa a terra, escurece todos os rios, circunda os cumes do Oeste e aconchega a dobra da derradeira margem, e ninguém, é que ninguém sabe o que vai acontecer a ninguém além dos tristes andrajos da velhice, penso no Neal Cassady, penso até no Velho Neal Cassady o pai, que não chegamos a encontrar, penso no Neal Cassady.”
Jack Kerouac – "Pela Estrada Fora – O Rolo Original" – 1957

15/01/2020

A Metamorfose

“Enquanto iam conversando o senhor e a senhora Samsa repararam quase ao mesmo tempo, ao olharem para a filha, como ela foi ganhando vivacidade, como ultimamente, apesar de todos os contratempos, que a deixaram com aquela palidez na face, ela tinha desabrochado e se tornara uma rapariga bonita e desejável. À medida que iam ficando mais silenciosos, e num entendimento tácito de troca de olhares, pensavam que ia sendo altura de lhe arranjar um bom marido. E sentiram-se como que confirmados nos seus sonhos quando, chegados ao termo da viagem, a filha se levantou em primeiro lugar, evidenciando toda a frescura jovem do seu corpo.”
Franz Kafka – “A Metamorfose” – 1915

03/12/2019

A Fenda Aberta

"Mal se olha o Mediterrâneo ficamos logo a perceber por que é que o homem se pôs ali de pé, pela primeira vez, e estendeu ao sol os seus braços. É um mar azul; ou antes, mais azul será por causa da estafada frase que descreve todo o charco, desde o Pólo Norte ao Sul. É o azul feérico dos quadros de Maxfield Parrish; o azul dos livros azuis, da essência azul, de olhos azuis, e a sombra das montanhas é uma faixa de terra verde que contorna cinquenta quilómetros a costa e faz o campo de golfe do mundo. A Riviera! O nome das suas estações, Cannes, Nice, Monte Carlo, evocam a memória de uma centena de reis e de príncipes sem trono que ali foram morrer, de rajás e beis misteriosos a atirar diamantes azuis a dançarinas inglesas, milionários russos a delapidar fortunas na roleta nesses dias de caviar já perdidos, de antes da guerra.
Desde Charles Dickens a Catarina de Médicis, desde Eduardo Príncipe de Gales no auge da popularidade a Oscar Wilde no mais fundo da desgraça, toda a gente veio esquecer aqui ou celebrar, esconder-se ou libertar-se, construir palácios brancos sobre saques da opressão ou escrever livros que às vezes minam esses mesmos palácios. Atrás de persianas descidas e à frente do mar, grãos-duques e batoteiros e diplomatas fumavam lentamente cigarros enquanto se passava de 1913 a 14 sem o calendário mudar de folha e ao norte a tempestade se adensava para três quartos de todos eles serem varridos com a sua fúria."
F. Scott Fitzgerald - "Viver um Ano de Quase Nada" - 1924

09/11/2019

As Partículas Elementares

“Não sirvo para nada, disse Bruno com resignação. Sou incapaz de criar porcos. Não tenho a mínima ideia sobre a fabricação de salsichas, garfos ou telemóveis. Sou incapaz de produzir qualquer desses objectos com os quais vivo e que utilizo ou devoro; nem sequer sou capaz de compreender o seu processo de produção. Se a indústria tivesse de parar, não era comigo que podia contar para recomeçar a produzir. Se me pusessem fora do complexo económico-industrial, não estaria sequer em condições de assegurar a minha sobrevivência. Não saberia alimentar-me, vestir-me, proteger-me dos rigores do clima; as minhas competências técnicas individuais são inferiores às do homem do Neandertal. Completamente dependente da sociedade que me rodeia, não lhe sirvo, em troca, praticamente nada. Tudo o que eu sei fazer é produzir comentários duvidosos sobre objectos culturais fora de uso. Contudo, recebo um salário, até um bom salário, largamente superior ao da maioria das pessoas. E a maior parte dos que conheço estão nas mesmas condições.”
Michel Houellebecq – "As Partículas Elementares" - 1998

31/08/2019

Kingdom Come

“Gostamos de faixas de rodagem duplas e de parques de estacionamento. Gostamos de arquitectura estilo torres de controlo e amizades que duram uma tarde. Não há nenhuma autoridade civil a dizer-nos o que fazer. Não há cá câmaras municipais nem assembleias gerais. Gostamos da prosperidade filtrada através das vendas de carros e de electrodomésticos. Gostamos de estradas que levam para lá de aeroportos, gostamos de transitários de transportes aéreos e de parques de aluguer de carrinhas, gostamos de pacotes de férias comprados num impulso com destino a qualquer sítio que nos dê na real gana. Somos os cidadãos do centro comercial e da marina, da internet e da televisão por cabo. Gostamos disto aqui e não temos pressa nenhuma que você se junte a nós.” 
J.G. Ballard – “Reino do Amanhã” - 2006

24/07/2019

Desertos Emocionais

“As periferias gozam de uma beleza para a qual não foram construídas. Foram construídas para serem espaços sem interesse, sem afecto, sem amor. E, apesar disso, há uma beleza que sobressai. É claro que há problemas, mas o número de pessoas com desejo, com um brilho nos olhos, é imenso. Nasci na periferia de Génova, na periferia oeste, onde está a classe operária. Cresci com essa ideia, toda a vida trabalhei nas periferias. Se não formos capazes de transformar as periferias em lugares urbanos, será um desastre, porque os centros das cidades vão tornar-se cada vez mais pequenos museus, centros comerciais a céu aberto, totalmente gentrificados, e as periferias irão tornar-se descontroladas. Esta é a causa nos próximos 50 anos.”
Entrevista a Renzo Piano – Revista do Expresso n.º 2422 de 30-03-2019

13/07/2019

Primeiro Amor, Últimos Ritos

“Desde o princípio do Verão até começar a parecer absurdo, púnhamos o colchão fino em cima da mesa de carvalho pesada e fazíamos amor em frente da grande janela aberta. Havia sempre uma brisa ligeira a soprar no quarto e os odores das docas quatro andares mais abaixo. Era assaltado por fantasias contra minha vontade, fantasias acerca do pequeno ser, e depois, quando ficávamos deitados de costas na mesa enorme, nos silêncios profundos, ouvia-o correr e arranhar de uma forma quase imperceptível. Tudo aquilo era novidade para mim, sentia-me inquieto e tentava conversar com a Sissel para me tranquilizar. Mas ela não tinha nada para dizer, nunca fazia abstracções nem discutia situações, pois vivia dentro delas. Ficávamos a contemplar o rodopio das gaivotas no nosso quadrado de céu e perguntávamo-nos se elas também nos estariam a ver; era desse género de coisas que falávamos, hipóteses ligeiramente divertidas sobre o momento presente.” 
Ian McEwan – “Primeiro Amor, Últimos Ritos” - 1975

01/06/2019

Novos Monopólios

"O Facebook é o caso perfeito para inverter caminho, justamente por a empresa obter o seu rendimento com anúncios dirigidos, o que significa que os utilizadores não têm que pagar para utilizar o serviço. Mas ele não é realmente gratuito, e de certeza que não é inofensivo.
O modelo do Facebook assenta em capturar ao máximo a nossa atenção, para encorajar as pessoas a criarem e a partilharem mais informações sobre quem são e quem desejam ser. Pagamos o Facebook com os nossos dados e a nossa atenção, e por qualquer desses critérios ele não sai barato."
Chris Hughes (co-fundador do Facebook) – The New York Times / Expresso

15/05/2019

A Pista de Gelo

"Certa tarde, enquanto dormia, Caridad entrou na tenda, despiu-se e fizemos amor, mais ou menos da mesma maneira, como se aquilo nada tivesse a ver connosco e os amantes de verdade estivessem mortos e enterrados. Mas era a primeira vez e foi bonito, e a partir de então começámos a falar mais um pouco, não muito, mas mais um pouco, sim…"
Roberto Bolaño - "A Pista de Gelo" – 1993

11/05/2019