23/08/2019
24/07/2019
Desertos Emocionais
“As periferias gozam de uma beleza para a qual não foram construídas. Foram construídas para serem espaços sem interesse, sem afecto, sem amor. E, apesar disso, há uma beleza que sobressai. É claro que há problemas, mas o número de pessoas com desejo, com um brilho nos olhos, é imenso. Nasci na periferia de Génova, na periferia oeste, onde está a classe operária. Cresci com essa ideia, toda a vida trabalhei nas periferias. Se não formos capazes de transformar as periferias em lugares urbanos, será um desastre, porque os centros das cidades vão tornar-se cada vez mais pequenos museus, centros comerciais a céu aberto, totalmente gentrificados, e as periferias irão tornar-se descontroladas. Esta é a causa nos próximos 50 anos.”
Entrevista a Renzo Piano – Revista do Expresso n.º 2422 de 30-03-2019
13/07/2019
Primeiro Amor, Últimos Ritos
“Desde o princípio do Verão até começar a parecer absurdo, púnhamos o colchão fino em cima da mesa de carvalho pesada e fazíamos amor em frente da grande janela aberta. Havia sempre uma brisa ligeira a soprar no quarto e os odores das docas quatro andares mais abaixo. Era assaltado por fantasias contra minha vontade, fantasias acerca do pequeno ser, e depois, quando ficávamos deitados de costas na mesa enorme, nos silêncios profundos, ouvia-o correr e arranhar de uma forma quase imperceptível. Tudo aquilo era novidade para mim, sentia-me inquieto e tentava conversar com a Sissel para me tranquilizar. Mas ela não tinha nada para dizer, nunca fazia abstracções nem discutia situações, pois vivia dentro delas. Ficávamos a contemplar o rodopio das gaivotas no nosso quadrado de céu e perguntávamo-nos se elas também nos estariam a ver; era desse género de coisas que falávamos, hipóteses ligeiramente divertidas sobre o momento presente.”
Ian McEwan – “Primeiro Amor, Últimos Ritos” - 1975
01/06/2019
Novos Monopólios
"O Facebook é o caso perfeito para inverter caminho,
justamente por a empresa obter o seu rendimento com anúncios dirigidos, o que
significa que os utilizadores não têm que pagar para utilizar o serviço. Mas ele
não é realmente gratuito, e de certeza que não é inofensivo.
O modelo do Facebook assenta em capturar ao máximo a nossa
atenção, para encorajar as pessoas a criarem e a partilharem mais informações
sobre quem são e quem desejam ser. Pagamos o Facebook com os nossos dados e a
nossa atenção, e por qualquer desses critérios ele não sai barato."
Chris
Hughes (co-fundador do Facebook) – The New York Times / Expresso
15/05/2019
A Pista de Gelo
"Certa tarde, enquanto dormia, Caridad entrou na tenda, despiu-se e fizemos amor, mais ou menos da mesma maneira, como se aquilo nada tivesse a ver connosco e os amantes de verdade estivessem mortos e enterrados. Mas era a primeira vez e foi bonito, e a partir de então começámos a falar mais um pouco, não muito, mas mais um pouco, sim…"
Roberto Bolaño - "A Pista de Gelo" – 1993
11/05/2019
06/05/2019
Literatura para Cansados
“Um ato de criação não se subordina. É triste olhar para os livros e pensar que são quase todos iguais, quando há uma infinidade de possibilidades. Isso é de uma pobreza e também reflete um cansaço. Os leitores estão cansados, as pessoas trabalham muito, têm vidas duras e há uma literatura para cansados, para pessoas que vêm do trabalho e que querem ler um livro como quem quer ter uma massagem ao final do dia. Mas a função da arte e da literatura não é descansar. É acordar, perturbar, refletir. Não deveríamos ver arte ou ler livros quando estamos cansados. A literatura e a arte exigem muito de nós.”
Entrevista a Gonçalo M. Tavares – Revista do Expresso de 06-04-2019
11/04/2019
A Noite e o Riso
“…Dei logo em meter olhos nos que
tinham precedido a minha geração temporal em tais praças de ritmo. Penso neles
quotidianamente, arrepiado. E mais resmungo réquies lembrando a moribundação de
vários companheiros. Vi: grandes mecos da melhor extracção humana rapidamente
sorvidos; contaminação de quem, em vez de fazer vida, deixa que o tempo a
esboroe com vagares dum oceano lamentável devorando o litoral.
De começo, tudo risota e
toca-a-andar. Éramos muito novos e tínhamos as algibeiras cheias de possível –
a única moeda inoxidável pela desvalorização normal.”
Nuno Bragança - "A Noite e o Riso" - 1969
19/08/2018
Fiesta
“Ao fim da rua vi a catedral, e
avancei para ela. Quando pela primeira vez a vira, achara a fachada horrenda, mas
agora agradava-me. Entrei. Estava escura e sombria e os pilares iam por ali
acima, e havia gente rezando, e cheirava a incenso, e havia algumas janelas
maravilhosas. Ajoelhei e desatei a rezar e rezei por toda a gente que me
lembrei, por Brett e Mike e Bill e Robert Cohn e por mim, e pelos toureiros
todos, em separado por aqueles de quem gostava, e em massa o resto; depois
rezei outra vez por mim, e, enquanto rezava, dei comigo cheio de sono, e rezei
logo para que as touradas fossem boas e as festas fossem bonitas e para eu
pescar alguma coisa. Pus-me a pensar se havia mais por que rezar, e pensei que
gostaria de ter dinheiro, e rezei para ganhar uma data de dinheiro, e depois
pensei em como o havia de ganhar, e pensar em ganhar dinheiro fez-me lembrar o
conde, e comecei a pensar onde estaria ele e a ter pena de não o ter tornado a
ver desde aquela noite em Montmartre, e numa coisa cómica que Brett me contara
acerca dele, e, como durante este tempo estava de joelhos com a testa nas
costas do banco da frente e me considerava rezando, senti-me um pouco
envergonhado, e lamentei ser um tão safado católico, mas verifiquei que não
havia nada a fazer, pelo menos por algum tempo, talvez para sempre, mas que
era, apesar de tudo, uma grande religião, e eu apenas queria sentir-me crente, o
que talvez me acontecesse para a próxima vez; e saí para o sol ardendo nos
degraus da catedral, e o indicador e o polegar da mão direita ainda estavam
molhados, e senti-os secar ao sol. O sol estava quente e forte, e atravessei
para umas casas, e regressei por ruas laterais ao hotel.”
Ernest Hemingway – “Fiesta” - 1926
14/08/2018
26/12/2017
08/12/2017
Final do Jogo
“Mas onde acabávamos mesmo era
nas vias do Central Argentino, quando a casa ficava em silêncio e víamos o gato
a estirar-se debaixo do limoeiro para dormir também ele a sua sesta perfumada e
ciciante de vespas. Abríamos devagar a porta branca e ao fechá-la outra vez era
como se houvesse uma lufada de vento, uma liberdade que nos tomava pelas mãos, pelo
corpo todo, e nos lançava para a frente. Então corríamos para ganhar impulso e
trepar de um salto o muro curto da estação de comboios, e elevadas por sobre o
mundo contemplávamos, silenciosas, o nosso reino.”
Julio Cortázar - "Final do Jogo" - 1954
06/11/2016
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