15/05/2019

A Pista de Gelo

"Certa tarde, enquanto dormia, Caridad entrou na tenda, despiu-se e fizemos amor, mais ou menos da mesma maneira, como se aquilo nada tivesse a ver connosco e os amantes de verdade estivessem mortos e enterrados. Mas era a primeira vez e foi bonito, e a partir de então começámos a falar mais um pouco, não muito, mas mais um pouco, sim…"
Roberto Bolaño - "A Pista de Gelo" – 1993

11/05/2019

06/05/2019

Literatura para Cansados

“Um ato de criação não se subordina. É triste olhar para os livros e pensar que são quase todos iguais, quando há uma infinidade de possibilidades. Isso é de uma pobreza e também reflete um cansaço. Os leitores estão cansados, as pessoas trabalham muito, têm vidas duras e há uma literatura para cansados, para pessoas que vêm do trabalho e que querem ler um livro como quem quer ter uma massagem ao final do dia. Mas a função da arte e da literatura não é descansar. É acordar, perturbar, refletir. Não deveríamos ver arte ou ler livros quando estamos cansados. A literatura e a arte exigem muito de nós.”
Entrevista a Gonçalo M. Tavares – Revista do Expresso de 06-04-2019

11/04/2019

A Noite e o Riso

“…Dei logo em meter olhos nos que tinham precedido a minha geração temporal em tais praças de ritmo. Penso neles quotidianamente, arrepiado. E mais resmungo réquies lembrando a moribundação de vários companheiros. Vi: grandes mecos da melhor extracção humana rapidamente sorvidos; contaminação de quem, em vez de fazer vida, deixa que o tempo a esboroe com vagares dum oceano lamentável devorando o litoral.
De começo, tudo risota e toca-a-andar. Éramos muito novos e tínhamos as algibeiras cheias de possível – a única moeda inoxidável pela desvalorização normal.”
Nuno Bragança - "A Noite e o Riso" - 1969

24/08/2018

Stencil de Guaté Mao - Porto - Janeiro 2018

19/08/2018

Fiesta

“Ao fim da rua vi a catedral, e avancei para ela. Quando pela primeira vez a vira, achara a fachada horrenda, mas agora agradava-me. Entrei. Estava escura e sombria e os pilares iam por ali acima, e havia gente rezando, e cheirava a incenso, e havia algumas janelas maravilhosas. Ajoelhei e desatei a rezar e rezei por toda a gente que me lembrei, por Brett e Mike e Bill e Robert Cohn e por mim, e pelos toureiros todos, em separado por aqueles de quem gostava, e em massa o resto; depois rezei outra vez por mim, e, enquanto rezava, dei comigo cheio de sono, e rezei logo para que as touradas fossem boas e as festas fossem bonitas e para eu pescar alguma coisa. Pus-me a pensar se havia mais por que rezar, e pensei que gostaria de ter dinheiro, e rezei para ganhar uma data de dinheiro, e depois pensei em como o havia de ganhar, e pensar em ganhar dinheiro fez-me lembrar o conde, e comecei a pensar onde estaria ele e a ter pena de não o ter tornado a ver desde aquela noite em Montmartre, e numa coisa cómica que Brett me contara acerca dele, e, como durante este tempo estava de joelhos com a testa nas costas do banco da frente e me considerava rezando, senti-me um pouco envergonhado, e lamentei ser um tão safado católico, mas verifiquei que não havia nada a fazer, pelo menos por algum tempo, talvez para sempre, mas que era, apesar de tudo, uma grande religião, e eu apenas queria sentir-me crente, o que talvez me acontecesse para a próxima vez; e saí para o sol ardendo nos degraus da catedral, e o indicador e o polegar da mão direita ainda estavam molhados, e senti-os secar ao sol. O sol estava quente e forte, e atravessei para umas casas, e regressei por ruas laterais ao hotel.”
Ernest Hemingway – “Fiesta” - 1926

14/08/2018

D. João Peculiar

Nuno Saraiva - Série "Na Terra Como no Céu" - Semanário Sol - VII 2011

08/12/2017

Final do Jogo

“Mas onde acabávamos mesmo era nas vias do Central Argentino, quando a casa ficava em silêncio e víamos o gato a estirar-se debaixo do limoeiro para dormir também ele a sua sesta perfumada e ciciante de vespas. Abríamos devagar a porta branca e ao fechá-la outra vez era como se houvesse uma lufada de vento, uma liberdade que nos tomava pelas mãos, pelo corpo todo, e nos lançava para a frente. Então corríamos para ganhar impulso e trepar de um salto o muro curto da estação de comboios, e elevadas por sobre o mundo contemplávamos, silenciosas, o nosso reino.”
Julio Cortázar - "Final do Jogo" - 1954

28/03/2017


Graffiti - Caminha - Novembro 2016

06/11/2016

Campo de Ténis

Tuy - Espanha - novembro 2016

04/08/2016

O Jogador

“Basta ter coragem, nem que seja uma única vez, e numa hora posso mudar todo o meu destino. O essencial é a coragem. Basta lembrar-me do que aconteceu há sete meses em Ruletemburgo, antes de me arruinar definitivamente. Foi um caso notável de decisão. Nessa altura tinha perdido tudo, tudo… Ao sair do casino notei que no bolso do casaco havia um florim: “Pelo menos, ainda tenho com que jantar”, pensei; mas, depois de andar cem passos, mudei de opinião e dei meia volta. Coloquei o florim no manque (daquela vez fora no manque) e, na verdade, experimenta-se uma sensação muito especial quando, só, em terra estranha, longe de parentes e amigos, sem saber o que se vai comer dali a pouco, se aposta o último florim, exactamente o último!”
Fedor Dostoievski – “O Jogador” - 1866

21/04/2016

05/04/2016

A Ilha

“Continuavam a caminhar em silêncio. Um resmalhar atrás deles fê-los voltar o rosto. Duas raparigas de bicicleta ultrapassaram-nos; as suas roupas coloridas e movimentos ágeis sobressaíram no ar com a vivacidade da vida, as suas vozes alegres foram transportadas pelas asas do vento durante muito tempo. Desapareceram.
A estrada ficou de novo deserta. Essa estrada que seguia sempre a direito atá ao infinito azul de mar e céu, despida, com raras casas à margem, fechadas, aparentemente desabitadas, e aqui e acolá montões de pedras estéreis; essa estrada plana, igual, sem poeira, surda aos passos, predominava sobre todos os impulsos da alma, sobre todos os pensamentos, com a feição de um destino implacável.”
Giani Stuparich – “A Ilha” - 1942

03/09/2015

Orçamento Participativo - Braga 2016

O projecto "Penico do Céu" nasce da necessidade de intervir, comunicar, gerar interacções e criar novas energias com a cidade. É um projecto democrático e de fruição gratuita que pretende facultar o contacto inesperado com o trabalho de autores de diferentes áreas, suscitando reacções de interrogação, surpresa e reflexão. 
A inspiração partiu dos placares públicos informativos que ainda hoje existem em várias cidades, relacionados maioritariamente com obituários, anúncios classificados e divulgação de actividades diversas, pretendendo-se reinventá-los criativamente. O projecto consiste na realização de intervenções artísticas em novos placares ou utilizando estruturas já existentes, como a rede de painéis publicitários espalhados pela cidade. Para além de alguma dose de irreverência, que um projecto como este beneficia, é a situação de exposição a céu aberto que justifica a utilização do epíteto meteorológico como identidade. A programação seria desenvolvida ao longo do ano em quatro edições/estações, recorrendo a sete pontos distribuídos pela cidade. As primeiras edições seriam colectivas e teriam como tema comum as memórias da cidade, podendo ser apresentadas através da fotografia, design gráfico, ilustração, pintura, poesia, história, etc., sendo impressas em papel de acordo com o suporte, preexistente ou não, que venha a ser seleccionado.
Todas as informações relativas ao Penico do Céu e à identificação/localização dos trabalhos estarão disponíveis na Internet.