02/11/2026

O Africano

"Vou ver a febre subir no céu do crepúsculo, os relâmpagos correndo em silêncio entre as escamas cinzentas das nuvens aureoladas de fogo. Quando for noite escura, escutarei os passos do trovão, cada vez mais próximo, a onda que faz vacilar a rede de dormir e sopra a chama do candeeiro. Escutarei a voz da minha mãe a contar os segundos que nos separam do impacto do raio e permite calcular a distância à razão de trezentos e quarenta metros por segundo. Enfim, o vento chuvoso, muito frio, que avança com toda a sua força sobre as copas das árvores, ouço cada ramo gemer e estalar, o ar do quarto enche-se do pó que a água levanta ao bater na terra.
Tudo isto está tão longe, tão perto. Uma simples divisória, fina como um espelho, separa o mundo de hoje do mundo de ontem. Não falo de nostalgia. Esta mágoa de abandono nunca me causou nenhum prazer. Falo de substância, de sensações, da parte mais lógica da minha vida."
J. M. G. Le Clézio - "O Africano" - 2004

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