02/11/2026

O Africano

"Vou ver a febre subir no céu do crepúsculo, os relâmpagos correndo em silêncio entre as escamas cinzentas das nuvens aureoladas de fogo. Quando for noite escura, escutarei os passos do trovão, cada vez mais próximo, a onda que faz vacilar a rede de dormir e sopra a chama do candeeiro. Escutarei a voz da minha mãe a contar os segundos que nos separam do impacto do raio e permite calcular a distância à razão de trezentos e quarenta metros por segundo. Enfim, o vento chuvoso, muito frio, que avança com toda a sua força sobre as copas das árvores, ouço cada ramo gemer e estalar, o ar do quarto enche-se do pó que a água levanta ao bater na terra.
Tudo isto está tão longe, tão perto. Uma simples divisória, fina como um espelho, separa o mundo de hoje do mundo de ontem. Não falo de nostalgia. Esta mágoa de abandono nunca me causou nenhum prazer. Falo de substância, de sensações, da parte mais lógica da minha vida."
J. M. G. Le Clézio - "O Africano" - 2004

08/10/2026

A Brasileira

Javier Campano - Café 'A Brasileira', Braga - 2000

21/09/2026

Antigos Mestres

"Nós confiamos toda a vida nos grandes espíritos e nos chamados Antigos Mestres, assim disse Reger, e eles desiludem-nos depois profundamente, porque não correspondem à sua finalidade no momento decisivo. Acumulamos como tesouros os grandes espíritos e os Antigos Mestres e pensamos que os podemos usar para os nossos fins no momento decisivo da sobrevivência, o que não significa senão abusar deles para os nossos fins, e verificamos depois que isso foi um erro terrível. Enchemos o nosso cofre espiritual com esses grandes espíritos e Antigos Mestres e recorremos a eles no momento decisivo para a vida; mas, quando abrimos esse cofre espiritual, ele está vazio, esta é que é a verdade, encontramo-nos diante desse cofre vazio e vemos que estamos sós e efectivamente na maior pobreza, assim disse Reger. O homem entesoura a vida inteira em todos os domínios e no fim vê-se sem nada, assim disse Reger, também no que respeita à sua riqueza espiritual. Que enorme riqueza espiritual eu acumulei, assim disse Reger no Ambassador, e no fim vejo-me absolutamente sem nada."
Thomas Bernhard - "Antigos Mestres" - 1985

23/08/2026

O Colapso

"Caminhámos até casa dele, mas no trajeto ele disse-me que precisava de fazer uma pausa. Parou numa tabacaria e eu fiquei à espera no exterior; quando saiu, o meu irmão trazia nas mãos três ou quatro raspadinhas, uns quadradinhos de cartão de cores estridentes.
Era algo que se tornaria sistemático nele, uma forma de obsessão e adição. Durante os meses que se seguiram, eu ia constatá-lo, o meu irmão compraria cada vez mais dessas raspadinhas na esperança de ganhar uma quantia impensável e de escapar à sua própria vida com esse dinheiro, de romper com a maldição da sua existència. Se os seus sonhos não se tinham concretizado, talvez o acaso ainda o pudesse salvar.
Em todo o caso, o retrato do meu irmão nessa altura da sua vida assemelha-se a este: um homem de pé na rua a raspar num cartão multicolor, os olhos injetados de esperança e de loucura, o lábio inferior mordiscado pelos dentes de cima. Enquanto raspava, eu tinha a sensação de que nada o poderia atingir. Eu poderia ter gritado, ou pronunciado insultos, ele não me teria ouvido - ele estava sozinho, sozinho com o seu Destino.
Raspou então os cartões que tinha nas mãos, uns a seguir aos outros, ganhava quantias minúsculas, com as quais comprava novos cartões, entrava e saía da tabacaria, até ao momento em que perdeu totalmente e já não tinha mais dinheiro nem raspadinhas vencedoras.
Encolheu os ombros, «Bom, não se pode ganhar sempre»."
Édouard Louis - "O Colapso" - 2024

05/08/2026

29/07/2026

A Missa do Galo

"Um velho com um djellaba branco saiu de casa e ficou de pé a olhar para os músicos. Os tambores iniciaram o seu ritmo lento, ele curvou-se e começou a arrastar os pés para trás e para diante sobre os paralelepípedos.
À medida que os tambores aumentavam de ritmo, os pés do velhote deixavam de se arrastar; as pernas pareciam saltar agora sob um impulso próprio. Agarrado pelo homem que estava atrás de si, retorcia-se até à extremidade da faixa que trazia à volta da cintura. Tinha os olhos fixos no fogo para onde desejava lançar-se. A música aumentou de volume, os músicos começaram a golpear o chão com as bordas dos seus benadit e o frenesim do velho crescia. O rosto mudava constantemente de expressão, como se distorcido por ondas de água que o atingissem. Entrava assim nos domínios do santo que o levaria do mundo visível a muito além, a esse lugar onde a sua alma se purificaria.
Quando, por fim, caiu no chão, os homens como se fossem um só, apressaram-se a afastá-lo do fogo."
Paul Bowles - "A Missa do Galo - Contos" - 1985

22/06/2026

Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico

“A grande originalidade da agricultura mediterrânea consiste, porém, na produção, em larga escala, do vinho e do azeite.
A vinha encontra aqui o optimum da sua cultura: o ar seco, a temperatura mais constante durante os meses de maturação do fruto, fazem com que ela se defenda melhor dos seus inimigos naturais. Os maiores produtores de vinho do mundo, excepto a França, são os países mediterrâneos e o lugar dele nas exportações é essencial.
Estes vinhos, que se conhecem por nomes eufónicos, ricos de álcool, perfumados, luminosos, fortes e contrastados como a paisagem onde se criaram, têm na grande variedade das bebidas estimulantes ou refrescantes um lugar à parte, raro e nobre. O homem do povo bebe sempre, em toda a parte, e sob todos os pretextos, os vinhos comuns. No Inverno o vinho aquece e dá conforto, que tantas vezes falta nas casas; no Verão refresca, ajuda a digestão, aguça o apetite que decresce pelos grandes calores. A cultura da vinha ultrapassa hoje, e muito, os limites do mundo mediterrâneo. Mas pode dizer-se que onde ela chega e o consumo do vinho é ainda corrente, chega também alguma coisa mais que recorda o Sul.”
Orlando Ribeiro - "Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico" - 1987 (5.ª edição)

03/05/2026

Hell's Angels

"A atracção que os Angels exercem amplamente sobre a sociedade é merecedora de consideração. Ao contrário da maior parte dos outros rebeldes, os Angels desistiram da esperança de que o mundo irá mudar para eles. Eles assumem, perante a evidência, que as pessoas que dirigem a máquina social não se interessam por motards revoltados e reconciliaram-se com a ideia de serem uns falhados. Mas, em vez de falharem calmamente, um por um, aliaram-se a um tipo de lealdade impensada e saíram do padrão, para o bem e para o mal. Poderão não ter uma resposta, mas pelo menos mantêm-se de pé."
Hunter S. Thompson - "Hell's Angels" - 1966

22/03/2026

The Puppeteer

Fortunino Matania (1881-1963). Aguarela e lápis, 460 x 390 mm. Colecção privada.

01/03/2026

Revolta Contra o Mundo Moderno

"Quando o último resíduo da força vinda do alto e o da raça do espirito se tiverem esgotado nas gerações sucessivas, não resta mais nada: já nenhum leito contém dentro de si a torrente, que se disperde em todas as direcções. Sobrevém o individualismo, o caos, a anarquia, a hybris humanista, a degeneração em todos os aspectos. O dique rompeu-se.
Mesmo que subsista a aparência de uma grandeza antiga, basta um choque mínimo para fazer ruir um Estado ou um Império. O que poderá substitui-lo será a sua inversão arimânica, o Leviathan moderno omnipresente, um sistema colectivo mecanizado e «totalitário»."
Julius Evola - "Revolta Contra o Mundo Moderno" - 1934

31/12/2025

Três Mulheres

"Também agora, de quando em quando, falava palavras despreocupadas, mas só durante o tempo que os cavalos descansavam na estrebaria; chegava à noite e partia de manhã ou só ficava de matinas a trindades. Confiava-se nele como uma coisa que a pessoa traz consigo. Se rimos, ri também, se caminhamos, caminha connosco, se apalpamos com a mão, sentimo-la; mas se alguma vez lhe pegamos e a encaramos, esta muda e olha para longe. Se alguma vez se tivesse demorado mais, a verdade é que teria de ser aquilo que era."
Robert Musil - "Três Mulheres" - 1924

26/11/2025

Contos Exemplares

“Nas avenidas, nas tílias, nas varandas, no barulho dos passos sobre as ruas de saibro e areia, dos passos que faziam rolar as pequenas pedras soltas, no mar, igual a um búzio repetindo o ressoar de passados temporais, e até no chão, nas mesas, nas cadeiras, parecia estar suspensa a espera de um regresso.
E à medida que a noite ia avançando, à medida que quase toda a gente se ia indo embora, à medida que se ia fazendo tarde, a espera ia-se tornando quase consciente, quase visível. Dir-se-ia que o tempo perdido ia surgir e ser tocado.
E as pessoas iam-se embora e as salas iam ficando vazias, passavam no ar interrogação e silêncio, como se qualquer coisa, qualquer coisa obscuramente desejada e prometida, não tivesse acontecido.”
Sophia de Mello Breyner Andresen - "Contos Exemplares" - 1962

13/11/2025

05/11/2025

Walt

"e dá- lhe no realejo com este discorno tonto que eu já começava a sentir os arrancos de um miserável enjoo terrestre, vendo à minha frente , não o lateiro, sim o vero Belzebu em pessoa de enxofre, que dementres pela cara avaliou certamente o quanto me eu reputava capaz de mandá-lo levar onde os macacos enfiam as nozes ou expressão afim, e pois que a verdade transluz nas faces menos brilhantes lá vai ele à vida dele, esquecendo-nos para ali mudos, estúpidos, rejeitados de pai e mãe, principalmente estúpidos que é uma posição de pés cansativa como o raio."
Fernando Assis Pacheco - "Walt" - 1978