"Caminhámos até casa dele, mas no trajeto ele disse-me que precisava de fazer uma pausa. Parou numa tabacaria e eu fiquei à espera no exterior; quando saiu, o meu irmão trazia nas mãos três ou quatro raspadinhas, uns quadradinhos de cartão de cores estridentes.
Era algo que se tornaria sistemático nele, uma forma de obsessão e adição. Durante os meses que se seguiram, eu ia constatá-lo, o meu irmão compraria cada vez mais dessas raspadinhas na esperança de ganhar uma quantia impensável e de escapar à sua própria vida com esse dinheiro, de romper com a maldição da sua existència. Se os seus sonhos não se tinham concretizado, talvez o acaso ainda o pudesse salvar.
Em todo o caso, o retrato do meu irmão nessa altura da sua vida assemelha-se a este: um homem de pé na rua a raspar num cartão multicolor, os olhos injetados de esperança e de loucura, o lábio inferior mordiscado pelos dentes de cima. Enquanto raspava, eu tinha a sensação de que nada o poderia atingir. Eu poderia ter gritado, ou pronunciado insultos, ele não me teria ouvido - ele estava sozinho, sozinho com o seu Destino.
Raspou então os cartões que tinha nas mãos, uns a seguir aos outros, ganhava quantias minúsculas, com as quais comprava novos cartões, entrava e saía da tabacaria, até ao momento em que perdeu totalmente e já não tinha mais dinheiro nem raspadinhas vencedoras.
Encolheu os ombros, «Bom, não se pode ganhar sempre»."
Édouard Louis - "O Colapso" - 2024

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