07/08/2023
28/07/2023
Mendigos e Altivos
"O burburinho das vozes e a claridade dos candeeiros de
acetilene acolheram-no, qual refúgio benfazejo. A esta hora da noite, o Café
dos Espelhos ficava cheio de uma malta turbulenta que enchia as mesas todas e
deambulava em lenta procissão pela rua de terra batida. Da incessante telefonia
saltava, vagas duma música tempestuosa, a qual, amplificada pelos altifalantes,
afogava numa mesma confusão a magnificência das conversas, dos gritos e dos
risos. Neste tumulto grandioso, dedicavam-se a uma espécie de actividade
divertida mendigos andrajosos, cata-beatas, vendedores ambulantes, quais
saltimbancos em feira ruidosa. E todas as noites assim era, ali surgindo aquele
ambiente de arraial. O Café dos Espelhos parecia ser um lugar criado pela
sabedoria dos homens e situado nos confins de um mundo consagrado à tristeza."
Albert Cossery -"Mendigos e Altivos" - 1955
Albert Cossery -"Mendigos e Altivos" - 1955
14/05/2023
30/04/2023
Fantasmas da Minha Vida
"São os irreabilitados, uma
geração perdida, «sempre a suspirar pelo tempo que acabou de nos fugir»: os que
nasceram demasiado tarde para o punk, mas
cujas expectativas foram elevadas pelo seu incendiário crepúsculo; os que assistiram
à Greve dos Mineiros com olhos adolescentes e apoiantes, mas que eram
demasiado novos para participarem efectivamente na militância; os que sentiram
a euforia desejosa de futuro da rave como
um direito natural, sem sonharem que
ela poderia esfumar-se como sinapses fritas; os que, em suma, simplesmente não
achavam suportável a «realidade» imposta pelas forças conquistadoras do
neoliberalismo. A regra é adaptar-se ou morrer, estando muitas formas
diferentes de morte à disposição de quem não conseguir apanhar o alvoroço
comercial ou puxar do entusiasmo indispensável para as indústrias criativas. Seis
milhões de maneiras de morrer, é só escolher uma: drogas, depressão,
indigência, tantas formas de colapso catatónico. Noutros tempos, os
«pervertidos, psicóticos e os que se iam mentalmente abaixo» inspiravam
poetas-militantes, situacionistas, sonhadores da rave. Agora, são encarcerados
em hospitais, ou ficam a definhar na sarjeta."
Mark Fisher - "Fantasmas da Minha Vida - Escritos sobre Depressão, Hantologia e Futuros Perdidos" - 2014
Etiquetas:
beautiful losers,
domínio público,
livros
08/02/2023
28/01/2023
Fogo Grande
“Esperei por Sílvia todo aquele dia
e, como sempre, passei pelos estados de alma que já conhecia do tempo em que
estive sozinho e a procurava por toda a parte. Agora, porém, Sílvia estava
realmente, por todo o lado, e passei o dia muito mais perto dela. A casa, o pátio
e o campo continham uma Sílvia imutável e antiga, em que podia pensar sem
ansiedade nem doçura. Bastava-me sentir e absorver quanto era grande, diferente
e familiar aquela realidade em que ela nascera e à qual, embora debatendo-se
até porque se debatia consigo própria, acabava por pertencer cada vez mais.
Poder dispensá-la, pois chegara a tocar qualquer coisa do mais profundo da sua
presença, libertava-me e saciava-me.”
Cesare Pavese & Bianca Garufi – “Fogo Grande” - 1959
11/01/2023
18/12/2022
A Queda
"Nessas noites, antes, nessas
manhãs, pois a queda produz-se ao romper da alva, eu saio e parto, numa marcha
impetuosa, ao longo dos canais. No céu lívido as camadas de penas adelgaçam-se,
as pombas sobem um pouco, uma claridade rósea anuncia, ao nível dos telhados,
um novo dia da minha criação. No Damrak, o primeiro elétrico faz tinir a sua
campainha no ar húmido e toca a alvorada da vida nesta extremidade desta
Europa, onde, no momento, centenas de milhões de homens, meus súbditos, se
arrastam penosamente da cama, com a boca amarga, a fim de irem para o trabalho
sem alegria. Então, pairando em pensamento por cima de todo este continente que
me está submetido sem o saber, bebendo a luz de absinto que sobe, ébrio enfim
de ruins palavras, sinto-me feliz, sinto-me feliz, proíbo-o de não acreditar
que me sinto feliz, que morro de felicidade!
Oh, sol, praias, ilhas sob os alísios, juventude cuja lembrança desespera!"
Oh, sol, praias, ilhas sob os alísios, juventude cuja lembrança desespera!"
Albert Camus - "A Queda" - 1956
10/11/2022
28/10/2022
Intervenções
"Consciente de que a vida dos homens se desenrola
num ambiente biológico, técnico e sentimental (quer dizer, só muito
acessoriamente político), consciente de que essa vida tem por desígnio o
esforço para alcançar objectivos privados, ele rejeitará instintivamente
qualquer convicção política vincada. O homem revoltado, o resistente, o
patriota, o agitador surgir-lhe-ão antes de tudo como indivíduos desprezíveis,
movidos pela estupidez, pela vaidade e pelo desejo de violência.
Contrariamente ao reaccionário, o conservador não tem nem heróis nem mártires; se não salva ninguém também não faz vitimas, não haverá nele nada, em suma, de particularmente heroico; mas será, é um dos seus encantos, um individuo muito pouco perigoso.”
Contrariamente ao reaccionário, o conservador não tem nem heróis nem mártires; se não salva ninguém também não faz vitimas, não haverá nele nada, em suma, de particularmente heroico; mas será, é um dos seus encantos, um individuo muito pouco perigoso.”
Michel Houellebecq - “Intervenções” - 2021
27/08/2022
05/08/2022
Realismo Capitalista
“Todavia, a catástrofe ambiental
apenas figura na cultura do capitalismo tardio como uma espécie de simulacro,
sendo as suas verdadeiras implicações para o capitalismo demasiado traumáticas para
que o sistema as assimile. A importância das criticas ecologistas é o facto de
sugerirem que, longe de ser o único sistema político-económico viável, o
capitalismo está de facto talhado para destruir todo o meio humano. A relação
entre capitalismo e desastre ecológico não é uma coincidência nem um acidente:
a «necessidade de um mercado em constante expansão» do capital, o seu «fetiche
do crescimento», significa que o capitalismo se opõe pela sua própria natureza
a qualquer conceito de sustentabilidade.”
Mark Fisher – “Realismo
Capitalista” - 2020
30/07/2022
16/07/2022
Uma Abelha na Chuva
“de súbito, qualquer lembrança remota parecida com aquilo, dias de chuva, a cabeça fora da janela, a boca aberta a aparar as goteiras do telhado, um perfil de criança recortado ao longe; a cinza da morrinha embaciava a distância, o tempo, mas havia por baixo de tudo, ao fundo das coisas, esse fulgor inapagável, o seu próprio perfil de criança, e muito mais, uma ternura dispersa pela casa paterna, por campos e pessoas, por bichos e estrelas; o coração talhado numa grande pureza já perdida, a alma ainda livre da condenação do fogo, o corpo onde não acordara ainda o medo à morte, porque lhe era fácil então estender-se para fora da janela e beber alegremente das goteiras. Agora não. O vento impelia o marulho da treva, vinha salpicá-lo duma poeira húmida de ruínas; as costas doíam-lhe de encontro ao peitoril; mudou de posição, fez um esforço para se endireitar, fincando as mãos no rebordo da janela, e ficou cambaleante, de olhos abertos para a noite, negra de lado a lado: o luar nunca existiu, as estrelas também não, mas onde diabo terei eu visto já luar e estrelas, se nada vejo agora? O vento arrastava a poeira, apagava os astros, sumia tudo e na escuridão as coisas fermentavam. Apodreciam. Sabia-lhe mal a boca, um soluço flatulento e choco agitava-o. Deu-lhe vontade de chorar, chorar apenas, sem saber porquê. Esfregando os olhos, compreendeu confusamente que estava diante da janela aberta, entontecido e indisposto, que tinha a noite pela frente e que a noite lhe fazia bater os dentes devagar, cheio de frio.”
Carlos de Oliveira - “Uma Abelha na Chuva” – 1953 / 1980
12/07/2022
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