05/04/2016

A Ilha

“Continuavam a caminhar em silêncio. Um resmalhar atrás deles fê-los voltar o rosto. Duas raparigas de bicicleta ultrapassaram-nos; as suas roupas coloridas e movimentos ágeis sobressaíram no ar com a vivacidade da vida, as suas vozes alegres foram transportadas pelas asas do vento durante muito tempo. Desapareceram.
A estrada ficou de novo deserta. Essa estrada que seguia sempre a direito atá ao infinito azul de mar e céu, despida, com raras casas à margem, fechadas, aparentemente desabitadas, e aqui e acolá montões de pedras estéreis; essa estrada plana, igual, sem poeira, surda aos passos, predominava sobre todos os impulsos da alma, sobre todos os pensamentos, com a feição de um destino implacável.”
Giani Stuparich – “A Ilha” - 1942

03/09/2015

Orçamento Participativo - Braga 2016

O projecto "Penico do Céu" nasce da necessidade de intervir, comunicar, gerar interacções e criar novas energias com a cidade. É um projecto democrático e de fruição gratuita que pretende facultar o contacto inesperado com o trabalho de autores de diferentes áreas, suscitando reacções de interrogação, surpresa e reflexão. 
A inspiração partiu dos placares públicos informativos que ainda hoje existem em várias cidades, relacionados maioritariamente com obituários, anúncios classificados e divulgação de actividades diversas, pretendendo-se reinventá-los criativamente. O projecto consiste na realização de intervenções artísticas em novos placares ou utilizando estruturas já existentes, como a rede de painéis publicitários espalhados pela cidade. Para além de alguma dose de irreverência, que um projecto como este beneficia, é a situação de exposição a céu aberto que justifica a utilização do epíteto meteorológico como identidade. A programação seria desenvolvida ao longo do ano em quatro edições/estações, recorrendo a sete pontos distribuídos pela cidade. As primeiras edições seriam colectivas e teriam como tema comum as memórias da cidade, podendo ser apresentadas através da fotografia, design gráfico, ilustração, pintura, poesia, história, etc., sendo impressas em papel de acordo com o suporte, preexistente ou não, que venha a ser seleccionado.
Todas as informações relativas ao Penico do Céu e à identificação/localização dos trabalhos estarão disponíveis na Internet.

07/08/2015

The Catcher in the Rye

"Como ainda era cedo quando lá cheguei, sentei-me num daqueles bancos de couro, mesmo por baixo do relógio, e comecei a admirar as raparigas que passavam. Em muitas escolas já havia férias e por isso estavam ali dezenas de miúdas aguardando os namorados. Raparigas com as pernas cruzadas, raparigas com as pernas estendidas, raparigas com pernas formidáveis, raparigas com pernas medonhas, raparigas com aspecto terno, raparigas que certamente não passavam de verdadeiros estupores. Era um belo espectáculo. Em certo sentido, porém, não deixava de ser desagradável, pois comecei a matutar no que viria a acontecer a todas elas quando saíssem da escola ou da Faculdade. Casar-se-iam com tipos ordinários, daqueles que estão sempre a dizer que fazem mil quilómetros com um único galão de gasolina. Tipos que ficam chateados quando perdem um jogo de golf ou mesmo uma estúpida partida de pingue-pongue. Tipos idiotas. Tipos que nunca lêem livros. Tipos maçadores…"
J. D. Salinger - "The Catcher in the Rye" - 1951

02/06/2015

Sérgio Conceição pode continuar?

O jogo da final da Taça de Portugal, foi de certeza, o jogo mais penoso para mim, enquanto adepto do SC Braga há mais de 35 anos. Ainda não consigo acreditar no que aconteceu ontem… Leio as declarações de Sérgio Conceição e fico estupefacto: “Fomos superiores em tudo” – de que é que ele está a falar??! – com menos uma unidade desde os 15 minutos, o Sporting foi superior no tocante à posse de bola, número de ataques, remates, cantos, para não falar na atitude. Ou seja, mesmo em inferioridade numérica, o Sporting foi superior em todas as variáveis determinantes num jogo de futebol. Então Sérgio, fala de quê? – Fomos superiores em quê, afinal? Certamente, só pode estar a referir-se à nossa superior incompetência para controlar e ganhar um jogo, que não podíamos perder da forma que perdemos. Domingo era o nosso dia.

Avalio o trabalho realizado por Sérgio Conceição ao longo da época 2014/15 como globalmente positivo, pois pegou numa equipa desmoralizada pela péssima campanha, que culminou na pior classificação da última década e praticamente com os mesmos jogadores, atingiu o 4.º lugar no Campeonato e realizou um brilhante percurso até à final da Taça de Portugal.

No entanto, não consigo compreender como mantém um jogador como Baiano a titular: Baiano a atacar nunca provoca qualquer desequilíbrio, e os seus cruzamentos para a área são inofensivos; mas de um defesa espera-se, pelo menos, que saiba defender, e Baiano nesse aspecto, é incapaz de ganhar qualquer duelo 1x1 e quando apanha pela frente um jogador mais dotado tecnicamente, defende-se a ele próprio, recuando, recuando, até ao interior da área, com medo de disputar a bola e ser fintado. Enfim, com Sérgio Conceição esta "pérola" é titular indiscutível.

Salvador Agra é outro caso inexplicável – eventualmente, teria valido a pena apostar na sua adaptação a lateral direito, pois muito dificilmente seria pior que Baiano – e com Sérgio Conceição joga sempre. Baixar a cabeça e correr em frente, faz de alguém um jogador de futebol? Em quase duas épocas no SC Braga, a única coisa de jeito que fez, foi marcar um golo ao Benfica, pois tirando isso, tudo o resto é para esquecer.

Colocar Sasso a defesa esquerdo na Final, não lembraria a ninguém, a não ser a Sérgio Conceição: quantas vezes jogou Sasso nessa posição, esta época? Com Tiago Gomes (outra preciosidade) e Pedro Santos no banco, em que estaria Sérgio a pensar, ao colocar Sasso na lateral esquerda? Alguém ainda se lembra do que aconteceu quando Jesualdo teve igual ideia brilhante contra o Sporting em Alvalade?

A derrota na Final da Taça de Portugal, nas condições e circunstâncias em que ocorreu jamais se ultrapassa, nem será esquecida. Por isso, Sérgio Conceição não terá condições para ser o treinador do SC Braga na próxima época – a margem de tolerância será zero e aos primeiros maus resultados (e eles inevitavelmente vão surgir) a contestação será crescente e insustentável, obrigando a Direcção a trocar de treinador com a época a decorrer e isso raramente dá bom resultado. Basta recordarmos Rogério Gonçalves e Jorge Paixão.

25/08/2014

Os erros dos médicos

“Alguns dos erros mais frequentes devem-se ao facto dos médicos simplesmente terem deixado de observar os doentes com atenção. Acrescentem a essa falta de atenção uma tendência para apressar o tempo das consultas – os incentivos económicos e as pressões para ver mais pacientes em menos tempo são enormes – e os erros cognitivos tornam-se habituais. Quando colocados perante uma grande pressão em termos de tempo, os médicos irão forçosamente confiar cada vez mais em atalhos deste tipo para fazer as suas avaliações. O reconhecimento de um padrão com base numa avaliação instantânea do doente vai tornar-se a norma.
Na realidade, a capacidade para realizar diagnósticos instantâneos já é uma competência admirada entre os médicos.”
“Nos seus contactos com os pacientes, independentemente dos incentivos financeiros para serem mais eficientes e produtivos, os médicos devem tentar ser sistemáticos e meticulosos, quando tomam nota da história do paciente e realizam os exames clínicos. Os atalhos são perigosos. Pensar exige tempo.”
Jerome Groopman – “How Doctors Think” – 2007 [tradução livre] – Foto: Pedro Guimarães

24/08/2014

Mulheres e Homens

"E durante muito tempo fiquei muito quieto e senti-me como se estivesse completamente fora do mundo, sem referências de início ou fim, apenas lançado no espaço como um rapaz num foguete. Mas passado um bocado devo ter sustido a respiração, porque o coração me começou a bater com mais força e tive aquela sensação, a assustadora sensação que se tem quando se está a sufocar e a vida se está prestes a acabar – depressa, depressa, segundo a segundo – e é preciso fazer alguma coisa para nos salvarmos, mas não conseguimos. Só então nos lembramos que nós é que provocamos esse efeito, e nós é que temos de o fazer parar. Então parou e, depois, consegui respirar de novo. Olhei para a noite através da janela, onde as nuvens tinham aparecido e se tinham dispersado, a neve parara e o céu sobre o vasto solo branco era macio como o mais macio dos veludos. E senti-me calmo. Talvez pela primeira vez na minha vida, senti-me calmo. Tanto que, por um momento, também eu fechei os olhos e dormi."
Richard Ford – “Mulheres e Homens” - 1997

27/06/2014

Rua de Cedofeita - Porto - Maio 2014

24/05/2014

Um Dia Ideal para o Peixe-Banana

"Tu estás bem, Muriel? Diz-me a verdade.
- Estou óptima. Pára de me perguntar isso, por favor.
- Quando é que chegaram aí?
- Não sei. Quarta de manhã, cedo.
- Quem guiou?
- Ele – disse a jovem – E escusas de ficar nervosa. Guiou lindamente. Até fiquei admirada.
- Guiou ele? Muriel, deste-me a tua palavra de …
- Mãe – interrompeu a rapariga -, já te disse que guiou lindamente. A menos de oitenta o caminho todo, para dizer a verdade.
- Ele pôs-se com aquelas coisas dele com as árvores?
- Eu disse que ele guiou lindamente, mãe. Vá, por favor. Pedi-lhe para não se afastar da linha branca, e isso tudo, e ele percebeu o que eu queria dizer, e fez o que eu pedi. Até fazia por não olhar para as árvores…via-se que sim. A propósito, o papá mandou arranjar o carro?"
J. D. Salinger – “Nove Contos” – 1948

16/05/2014

Stencil - Rua do Heroísmo - Porto - Abril 2014

17/02/2014

FORÇA PORTUGAL

No meio de tanta notícia sobre a crise, a austeridade, o desemprego, a emigração e com uma profusão de profetas da desgraça a papaguear diariamente o pior dos cenários para Portugal, eis que surge um novo indicador que nos enche de esperança para o futuro. Segundo os dados de Janeiro de 2014 da Associação Comércio Automóvel de Portugal (ACAP), venderam-se 31,9% mais carros do que em Janeiro do ano anterior. Mas quem pensar que o líder do mercado nacional de ligeiros é a Renault, a Volkswagen, a Nissan ou a Peugeot, vai ficar surpreendido ao saber que é nada mais, nada menos que a BMW. Os portugueses podem estar perigosamente próximos do precipício, mas se caírem, caem em grande estilo.

01/12/2013

Gente do Milénio

"As pessoas não gostam delas próprias hoje em dia. Somos uma classe que vive dos rendimentos do século passado. Toleramos tudo, mas sabemos que os valores liberais foram concebidos para nos tornar passivos. Pensamos que acreditamos em Deus, mas estamos aterrorizados com os mistérios da vida e da morte. Somos profundamente egocêntricos, mas não conseguimos lidar com a ideia dos nossos eus finitos. Acreditamos no progresso e no poder da razão, mas somos perseguidos pelos aspectos mais sombrios da natureza humana. Estamos obcecados com o sexo, mas tememos a imaginação sexual e temos de nos proteger com enormes tabus. Acreditamos na igualdade, mas odiamos os excluídos sociais. Tememos os nossos corpos e, sobretudo, tememos a morte. Somos um acidente da natureza, mas pensamos que estamos no centro do universo. Estamos a alguns passos do oblívio, mas temos esperança de sermos de alguma forma imortais…"
J. G. Ballard – “Gente do Milénio” - 2003

01/11/2013

20/10/2013

Quem Governa?

Partilho esta análise muito lúcida, corajosa e perspicaz do que somos, e do que nos trouxe até aqui, publicada na edição de 18 de Outubro do jornal "Correio do Minho". O autor, Prof. Oliveira Rocha tem publicado nos últimos tempos uma série de artigos que deveriam ser de leitura obrigatória para todos os que se interessam pelo presente e futuro de Portugal.
 
"Há mais de cinquenta anos foi publicado um importante livro intitulado: Quem Governa? R. Dahl procurou uma alternativa à visão marxista que via na classe económica dominante a origem do poder. Por outro lado, não acreditava que as políticas fossem determinadas pelos eleitores; criou desta forma a abordagem pluralista à política, insistindo em que vários grupos de interesses competem na esfera política e o papel do governo é funcionar como mediador entre esses grupos.
Relativamente a cada política concreta, nenhum dos grupos tem recursos para decidir só por si; tem que fazer alianças. Ainda, segundo Dahl, os grupos são mais efetivos que os indivíduos; a pluralidade de grupos assegura a competição política; e o processo de negociação dificulta a aparição de extremismos.
Neste contexto, as eleições visam fundamentalmente legitimar os grupos de interesses e não determinar o sentido das políticas públicas.
Esta abordagem comum a G. Sartori, R. Dahl, S. Huntington e J. Shumpeter, explica o que se passa presentemente em Portugal.
Também aqui as decisões políticas resultam da interação entre diversos grupos de interesses que monopolizam o processo político. Só que no nosso país estes grupos não competem entre si, são aliados, funcionando em rede; o seu pessoal circula de grupo para grupo e casam-se entre si. Trata-se de uma classe dominante que suga o país e que decide da nossa vida.
O centro da rede é ocupado pela classe política, constituída pelos partidos que geram os governos e a assembleia, os gestores públicos e a alta administração que implementa as políticas. Mas, na verdade quer Passos Coelho ou Seguro são apenas figurantes; eles dependem dos outros grupos de interesses e presentemente das imposições dos credores.
Neste contexto, os meios de comunicação social têm um papel importante que não se pode confundir com o quarto poder. Desempenham algum controlo sobre os comportamentos dos agentes políticos; todavia, este papel tem limites impostos pela estabilidade e respeito pelos interesses instalados.
Por exemplo, o Secretário de Estado das Finanças e Orçamento foi simplesmente assassinado pelos comentadores políticos (Marcelo Rebelo de Sousa, Marques Mendes e Correia Campos), enquanto Rui Machete com um comportamento incomparavelmente mais reprovável foi sempre desculpabilizado. E porquê? Porque é um dos “nossos” - ex-ministro, gestor público, advogado de um grande gabinete e consultor dos diversos bancos. A “pequena” falha do BPN é uma coisa de família em que é melhor não tocar.
Os magistrados têm igualmente um papel importante na rede, já que gerem politicamente os processos que envolvem os políticos. Ora investigam agressivamente para pouco depois congelarem o seu andamento, ora deixam sair informações para a comunicação social. E não falamos do Tribunal Constitucional cujos juízes são escolhidos pelos partidos maioritários e contribuem decididamente para a estabilidade deste sistema.
Em quarto lugar, as grandes empresas de construção civil têm influenciado decididamente as decisões políticas. Parte da crise atual pode ser explicada pelos arranjos das grandes empresas da construção civil, com os bancos e o poder político. Estes grupos de interesses tiveram ao longo dos últimos anos uma ação concertada que desaguou nas parcerias público-privadas. Os bancos emprestavam o dinheiro, as construtoras construíam, o Estado pagava a prazo e os partidos ganhavam eleições. A crise financeira internacional veio pôr o fim neste arranjo.
Não nos podemos esquecer também dos grandes monopólios como a EDP, a GALP e brevemente os Correios que absorvem parte dos ex-governantes e que impõem rendas exorbitantes ao Estado, isto é, aos contribuintes.
Falta fazer uma referência aos grandes escritórios de advogados que contratualizam estas relações, ora representando o Estado, ora as grandes empresas. Em simultâneo, redigem as propostas leis que a Assembleia e o governo sufragam. Como disse atrás estes grupos detêm o poder. Não há conflitos porque isso geraria prejuízos e porque parte do pessoal circula da política para as empresas e destas para a administração dos bancos; por outro lado, são comentadores da televisão, moldando o pensamento de cidadãos que absorvem embebecidos as suas palavras.
Podíamos acrescentar outros grupos de interesses como sejam as universidades. Apesar da sua importância e do seu papel no desenvolvimento e inovação do país, foram atiradas para uma posição secundária. Não admira que assim seja, porquanto parte significativa da classe política é oriunda das universidades privadas com cursos a la carte. De resto é significativo que o número de académicos na superestrutura do governo seja pouco significativo.
Mas em contrapartida, o núcleo duro dos grupos dirigentes vindos em grande parte da Monarquia Constitucional (veja-se os Mexias, Ferreira do Amaral, Dias Ferreira, etc.) tiram os cursos na Católica e na Nova, com mestrados em grandes Universidade inglesas e americanas. Esta gente não brinca em serviço como fazem os políticos, entretidos com os seus pequenos negócios.
É isto a nossa democracia, suportada por uma classe média, criada pelos dinheiros europeus e pela dívida externa. Mas agora que a Troika obriga a pagar aos credores, o seu peso é fortemente reduzido pela diminuição de salários, aumento de impostos e cortes de pensões.
O resto da população é arrastada para a penúria e para o desemprego. Mas enquanto a população paga a dívida, os grupos dominantes que gerem o país defendem-se, mantendo o seu nível de rendimentos. Como diz o Primeiro-Ministro é necessário que os portugueses não gastem mais do que o que produzem, regredindo vinte anos no seu nível de vida."