13/10/2013
20/08/2013
Noites de Cocaína
“Notei as características daquele
mundo silencioso: a imémore arquitectura branca; o ócio forçado que fossilizava
o sistema nervoso; o ar quase africanizado, mas de um Norte de África inventado
por alguém que nunca pusera os pés no Magrebe; a aparente ausência de qualquer
estrutura social; a intemporalidade de um mundo para lá do tédio, sem passado,
sem futuro, com um presente cada vez mais curto. Seria aquilo de facto a
antevisão de um amanhã dominado pelo ócio? Nada podia acontecer naquele domínio
despido de afectos, onde a deriva entrópica acalmava as superfícies de um
milhar de piscinas.”
J. G. Ballard – “Noites de
Cocaína” – 2000
26/05/2013
24/04/2013
A Confraria do Vinho
"Enchi o copo e fui para o
alpendre da frente. Sentei-me na cadeira de baloiço que rangeu e acendi um cigarro.
A escuridão não tardou. Mais abaixo uma mãe saía de casa para chamar as
crianças para jantar. O lampião da esquina acendeu-se e um cão velho passou por
baixo dele no caminho para casa. Os olhos brancos dos televisores brilharam
através das janelas do outro lado, com cowboys a correr através de ecrãs, e o
tiroteio a estalar no crepúsculo de San Elmo. Uma cidade solitária. Todas as
terras do vale eram assim: desoladas, uma decadência mística, enclaves da
existência humana, com pessoas agrupadas por detrás de pequenas vedações e
frágeis paredes estucadas, barricadas contra a escuridão…à espera."
John Fante – “A Confraria do
Vinho” - 1977
15/04/2013
11/04/2013
A Primavera Há-de Chegar, Bandini
“Gostava do som dessa palavra. Mulheres, mulheres, mulheres. Repetia-a incansavelmente, pois causava-lhe uma secreta excitação. Mesmo durante a missa, quando se via rodeado por umas cinquenta ou cem mulheres, costumava entregar-se aos íntimos prazeres da sua imaginação.
E era tudo proibido; tudo aquilo lhe dava uma pegajosa sensação de pecado. O próprio som de algumas palavras era pecaminoso. Prega. Flexível. Mamilo. Tudo pecados. Carnal. Corpo. Escarlate. Lábios. Tudo pecados. E até quando rezava uma ave-maria. Ave Maria cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita sois Vós entre as mulheres e bendito é o fruto do Vosso ventre. Aquelas palavras abalavam-no como um tremor de terra. O fruto do vosso ventre. Outro pecado.”
John Fante – “A Primavera Há-de Chegar, Bandini” - 1938
03/02/2013
22/01/2013
Plataforma em Chamas
"Às 21:30 de uma noite de julho de 1988, ocorreu uma enorme explosão, seguida de incêndio numa plataforma de perfuração de petróleo no Mar do Norte, na costa da Escócia. Perderam a vida 166 membros da equipa da plataforma e dois socorristas naquela que foi qualificada como a maior catástrofe dos 25 anos de história da exploração de petróleo no Mar do Norte. Sobreviveram 63 trabalhadores da plataforma, entre eles Andy Mochan. A sua entrevista ajudou-me a encontrar uma maneira de descrever a determinação dos vencedores dos processos de mudança. Da sua cama no hospital, ele disse que acordou com a explosão e com as sirenes, tendo saido a correr dos seus aposentos até à berma da plataforma, saltando de seguida para a água. Devido à temperatura da água, ele sabia que poderia viver, no máximo, cerca de 20 minutos, se não fosse resgatado. Além disso, o crude derramado nas águas estava em chamas. Mas ainda assim, Andy saltou de uma altura de mais de 45 metros no meio da noite para um mar de chamas repleto de escombros. Quando lhe perguntaram porque tomou a decisão de dar o salto potencialmente fatal, ele não hesitou: - "Era saltar ou morrer queimado." Tratava-se de escolher entre a morte hipotética e a morte certa. Ele saltou porque não tinha nenhuma alternativa - o preço de ficar na plataforma, de manter o status quo, era muito alto. Este é o mesmo tipo de situação que muitas empresas, líderes sociais e políticos encontram diariamente. Às vezes temos que fazer algumas mudanças, não importa quão incertas e assustadoras elas são. Nós, como Andy Mochan, teriamos que enfrentar um preço demasiado alto para não o fazer. Uma “plataforma em chamas” existe quando a manutenção do status quo se torna proibitivamente caro. Grandes mudanças são sempre custosas, mas quando a situação actual é ainda mais gravosa, estamos perante uma situação de "plataforma em chamas". A característica chave que distingue uma decisão tomada numa situação de “plataforma em chamas” de todas as outras decisões não é o nível de emoções envolvido, mas o nível de determinação. Quando estamos numa situação de “plataforma em chamas”, a decisão de fazer grandes mudanças não é apenas uma boa ideia - é um imperativo de sobrevivência".
Daryl R. Conner - "From Managing at the Speed of Change" - 1993 (tradução livre)
07/01/2013
O pastor e a tempestade
“Há uma imagem da política como poder pastoral, que é de Foucault, em que o político, como o padre, é aquele que orienta o rebanho. O que é o pior que pode acontecer ao rebanho? É se o pastor orienta o rebanho para o desfiladeiro. Mas há coisas úteis mesmo para um pastor incompetente que é uma tempestade. Porque numa tempestade o rebanho junta-se e nem é preciso o cão para o juntar. Junta-se espontaneamente. É nessa fase que nós devemos orientar o futuro. Porque quando passar a tempestade não se pode esperar que o rebanho continue ali parado com o temor à catástrofe, mas é nesse momento que é preciso saber para onde vamos dirigir-nos.” (in entrevista a Joaquim Aguiar, Público, 06-01-2013)
23/12/2012
Ano Capital
O ano de 2012 que agora termina foi
o ano em que se acentuou a crise económica e social em Portugal, com cortes
salariais, aumento de impostos, redução de serviços públicos, falências, incumprimento
bancário, emigração crescente e de desemprego galopante. O ano de 2012
foi também o ano das capitais: a Capital Europeia da Cultura em Guimarães e
a Capital Europeia da Juventude em Braga, com todo o foguetório fátuo que se conhece.
Daqui a uns tempos, com um pouco
de distanciamento, esta história vai recordar-nos um célebre navio cuja banda
de música continuava a tocar, indiferente ao naufrágio irremediável.
Etiquetas:
Braga,
domínio público,
economia e finanças,
Portugal
07/09/2012
03/09/2012
Pergunta ao Pó
“Uma noite, uma mulher demasiado bela para este mundo passou por mim nas asas do perfume e eu rendi-me totalmente, e nunca soube quem ela era, uma mulher de casaco de raposa vermelha e chapeuzinho atrevido, e o Bandini seguiu-a, pois era mais bela do que um sonho, viu-a entrar no Bernstein’s Fish Grotto e continuou a observá-la, em transe, através do vidro de um aquário onde nadavam rãs e trutas, a observá-la enquanto ela comia sozinha; e quando ela acabou de comer, queres saber o que eu fiz? Não chores, porque ainda não ouviste nada, porque eu sou horrível, mulher, e tenho o coração cheio de tinta negra; eu, Arturo Bandini, entrei pela porta adentro do Bernstein’s Fish Grotto e sentei-me na mesma cadeira onde ela tinha estado sentada e estremeci de prazer e toquei o guardanapo que ela tinha usado e vi uma ponta de cigarro com uma marca de batom, e queres saber o que fiz, mulher, tu, com esses teus estranhos problemas? Meti a ponta de cigarro na boca, mastiguei-a, tabaco, papel e tudo, e engoli-a, e soube-me muito bem, porque a mulher era tão bela, e havia uma colher ao lado do prato e eu meti-a ao bolso, e de vez em quando tirava a colher do bolso e levava-a à boca, porque ela era lindíssima. Um amor económico, uma heroína disponível e de borla, tudo para o negro coração de Arturo Bandini, uma imagem recordada através de um aquário cheio de rãs e trutas.”
John Fante – "Pergunta ao Pó" - 1939
John Fante – "Pergunta ao Pó" - 1939
10/10/2011
22/05/2011
07/05/2011
Portugal Electrocutado
Depois do choque fiscal de Durão Barroso, do choque tecnológico de José Sócrates, Pedro Passos Coelho promete o choque da competitividade.
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