12/12/2007

O amor em tempos de angústia

O projecto Censura Prévia foi criado em 2002 por elementos ligados ao Teatro Universitário do Minho. Em 2005, depois de algumas festas e uma incursão pela Bracara Angustia, instalaram-se na Travessa do Caires, n.º 39 junto à Estação da CP, num edifício de vários pisos que baptizaram de Espaço.
A localização, apesar de relativamente próxima do centro da cidade, tem já traços de subúrbio. O Espaço, que parece ter sido anteriormente uma oficina (ou armazém) fica nas traseiras dos prédios da Rua do Caires, identificando-se pelo abat-jour colocado numa janela, reminiscente do tempo em que o edifício albergou uma casa de putas.
No marasmo cultural bracarense, a Censura Prévia propõe um projecto muito ousado e diferenciado. É notória a intenção de mexer com as coisas e com as pessoas, abrindo o Espaço à intervenção e participação, mas a localização periférica e o carácter marcadamente alternativo da programação dificilmente permitirão cativar um público alargado.
A audácia e a persistência necessárias para manter um projecto desta natureza em Braga e a qualidade das propostas apresentadas são os aspectos mais relevantes e admiráveis. Por outro lado, a fraca divulgação, a irregularidade da programação, o deficiente funcionamento do bar e a decoração/aspecto geral, poderiam ser melhorados.
O Espaço tem sido palco de inúmeros concertos de variadas correntes musicais, exposições/instalações, festas com DJ e VJ e o ciclo de mini-espectáculos “Para ficar a perceber ainda menos sobre o amor” nos últimos três dias de cada mês. Os espectáculos apresentados são da autoria de elementos da Censura Prévia ou de outros criadores que mantêm alguma afinidade com o projecto.
Para ficar a perceber ainda menos sobre o amor #6
Nos dias 29, 30 e 31 de Julho foi apresentado o 6.º mini-espectáculo “Para ficar a perceber ainda menos sobre o amor”, uma criação e interpretação colectiva de seis elementos da Censura Prévia. Com uma notável capacidade de improvisar com recursos muito escassos e de baixo orçamento - objectos comuns como cadeiras, cordas e molas, sacos, bidão, mangueira e um escadote, conseguem obter um brutal efeito cenográfico e sensorial.
Ao longo do espectáculo assistimos a solos e a interacções de grupo, aos momentos de acalmia sucede-se a maior desbunda, como no “Simple Men” de Hal Hartley onde os actores, de repente, começam a dançar freneticamente “Kool Thing” dos Sonic Youth. Os sacos de plástico cheios de líquido pendurados no tecto pingam ininterruptamente através de pequenos buracos até revelarem o que escondem no fundo. O capuchinho vermelho espera entediada pelo lobo mau que nunca aparece. Também há ironia indolente sobre os clichés dos clássicos shakesperianos, à pancada de Molière respondem com o teatro às três pancadas, iconoclastas e a borrifarem-se para a mecanização ensaiada das cenas.
Ouve-se música de Aphex Twin, Clã, Radiohead, Nancy Sinatra, kizomba e kuduro. Uma mangueira jorra água até inundar completamente a sala, o dilúvio mas sem o efeito purificador. Os actores desnudam-se, chapinham e rebolam na água, estatelam-se desamparadamente e partem os dentes no chão, inebriados, eufóricos e hedonistas.
O amor de todas as maneiras e feitios, sempre inexplicável e irracional – um gajo estranho com travo amargo e sem finais felizes.
Ficha artística:
Textos de Ana Arqueiro. António Gregório. Eva Malaínho. Homero. Molière e Sandra Andrade.
Criação e interpretação de Ana Arqueiro. Clara Alves de Sousa. Eva Malaínho. Luís Cardoso. romeulebres e Sandra Andrade.
fotos: Teresa Luzio

05/12/2007

Braga - Dezembro 2007
foto: João Foldenfjord

03/12/2007

Café A Brasileira - Braga

Foi apresentado no passado dia 10 de Novembro o fanzine “A Brasileira com Cem”, comemorativo do centésimo aniversário do vetusto café bracarense. O fanzine tem 44 páginas compostas por trabalhos originais em forma de texto, desenho, fotografia, ilustração, banda desenhada, poesia, etc. O fanzine teve uma tiragem inicial de 250 exemplares e pode ser adquirido por 2 euros ao balcão da Brasileira.
Participaram no fanzine os seguintes autores: Adriano Faria, Alexandre Gonçalves, Bento Duarte, César Taíbo, Cláudia Bueso, Esmeralda Duarte, Helena Carneiro, João Foldenfjord, Jorge Moreira, Kid, Madalena Dória, Miguel Meira, MTFields + MSunshine, Nuna Poliana, Nuno Cláudio, Nuno Gomes, Paulo Bonito, Paulo Nogueira, Paulo Trindade, Pedro Guimarães, Ricardo Fiúza, Sebastião Peixoto, Sofia Saldanha, Vítor Costa e Vítor Silva.
Odemira - Agosto 2007

23/11/2007

Xeque à Quinta dos Peões

Foi anunciado recentemente o lançamento de um concurso de ideias para a Quinta dos Peões localizada em frente ao Campus de Gualtar da Universidade do Minho. Anteriormente, a Quinta era ocupada pelo Núcleo de Melhoramento do Milho do Instituto de Investigação Agrária, estando classificada como Reserva Agrícola Nacional. Seria do mais elementar bom senso que quando o Ministério da Agricultura prescindisse da Quinta, ela fosse para as mãos da Universidade do Minho. No entanto, em 1995 um Governo incompetente tratou de a vender em hasta pública por 900.000 contos à empresa Rodrigues & Névoa. A polémica em torno do negócio foi imediata devido ao receio sobre o destino que a imobiliária daria aos terrenos, numa zona já fortemente estigmatizada em termos de construção, tráfego rodoviário e poluição.
Ao longo dos anos, o processo da Quinta dos Peões tem sido objecto de sucessivas rondas de negociação entre o proprietário, a Câmara e a UM. Em traços gerais, daí resultou um acordo/protocolo onde a imobiliária cederia uma parcela de cerca de 4 hectares à Universidade como contrapartida para urbanizar/construir no terreno.
Entretanto, a Quinta tem sido o palco das últimas edições do Enterro da Gata, aparecendo periodicamente na comunicação social ora porque serve de depósito ilegal de detritos/areias que desqualificam e degradam o terreno, ou porque para aí está prevista a construção da nova sede da AAUM, ou por fim porque é um dos locais propostos para possível localização do Instituto Ibérico de Investigação e Desenvolvimento, que acabou por ir para os terrenos da Bracalândia.
Em finais de 1996 propus que a Quinta dos Peões revertesse de novo para o domínio público e fosse transformada em jardim botânico/parque da cidade. Esta solução sempre me pareceu a que melhor salvaguardava os interesses da UM e dos bracarenses:
- um jardim botânico dotado de grande biodiversidade, com estufas, espaços ajardinados com todo o tipo de árvores, plantas e flores, cursos de água, percursos pedestres e de manutenção, onde fosse possível desfrutar de uma paisagem natural aprazível, de tranquilidade e ar puro. Um espaço onde fosse possível passear, descansar, tirar fotografias, estudar, fazer piqueniques, etc.
- com esta solução poderiam ser aproveitadas as infra-estruturas e o know-how dos técnicos do Núcleo de Melhoramento do Milho, em conjunto com diversos Departamentos da UM para mostrar aos jovens e à população em geral a investigação e a ciência de forma pedagógica e lúdica;
- a Quinta dos Peões serviria de pulmão / zona tampão para o campus da Universidade podendo ser utilizada pela comunidade como local de investigação, de estudo, prática de desporto e zona de lazer;
- o jardim botânico / parque da cidade seria um espaço de interface / aproximação entre a Universidade e a cidade de Braga invertendo o distanciamento existente.

O concurso de ideias lançado pela empresa Rodrigues & Névoa, anunciado no Senado Universitário dando conta da participação de docentes do Dep. Arquitectura da UM no processo de selecção das propostas é uma forma ardilosa de facilitar os interesses da conhecida (nem sempre pelos melhores motivos) imobiliária bracarense. A empresa só poderá rentabilizar o seu investimento na Quinta dos Peões se puder edificar, mas sabe de antemão que a sua intervenção suscitará sempre polémica, pelo que pretende minimizar os seus efeitos, utilizando a capa da Universidade para caucionar o processo, dando-lhe em troca umas migalhas de terreno. A UM pela voz do seu Reitor diz-se muito sensibilizada com a preocupação do proprietário em salvaguardar “o ambiente e a vivência da comunidade académica”, revelando um pragmatismo excessivamente realista que considera umas migalhas melhores que nada.
Ao longo deste processo, a Câmara sempre afirmou que pouco podia fazer, a não ser servir de intermediário e que a responsabilidade era toda do Governo que alienou o terreno. Sendo certo que não foi a Câmara a fonte original do problema, Mesquita Machado tinha obrigação de afirmar, de forma inequívoca, que não viabilizaria qualquer construção no local, frustrando qualquer veleidade da imobiliária. Os superiores interesses da cidade e dos bracarenses assim o exigiam.
(também publicado na edição de 28/11/2007 do jornal Diário do Minho)

18/11/2007

13/11/2007

SWATCH - “19° South, 169° West”

A nova colecção Outono/Inverno da Swatch reserva uma surpresa especial – a homenagem a Corto Maltese, famoso personagem de banda desenhada criado por Hugo Pratt há 40 anos, nas páginas d’ “A Balada do Mar Salgado“, história cuja publicação se inicia no primeiro número da revista “Sgt. Kirk”.
Corto Maltese é um marinheiro nascido na ilha de Malta, viajante aventureiro pelos quatro cantos do mundo, amante da liberdade e amigo dos fracos e oprimidos.
Hugo Pratt (15/06/1927 – 20/08/1995), nascido em Veneza inspirou-se nas suas viagens para criar o aventureiro que percorre todos os continentes e navega em todos os mares. Corto Maltese, o anti-herói romântico, sempre de partida em busca de acção ou perseguindo um sonho, atravessando todos os grandes acontecimentos do início do século XX.
A Swatch lançou dois modelos inspirados na mítica personagem de BD: o modelo Corto” (SUJZ106) é a cores e tem edição ilimitada; o modelo “19° South, 169° West” vem num estojo especial de cabedal negro com um mapa impresso a branco, acompanhado por uma bússola. O relógio tem impressos grafismos a preto e branco característicos da banda desenhada. Esta edição é muito cuidada e limitada.
O relógio é um dos melhores lançados pela Swatch em muito tempo, entrando directamente para o meu top de preferências.

Modelo: "19° South, 169° West " (SUJZ105S) – 2007
Edição: 11.111 exemplares.

06/11/2007

Lançamento do fanzine

No dia 10 de Novembro pelas 18:00, no café A Brasileira em Braga, será apresentado o fanzine “A Brasileira com Cem”.

Com o propósito da comemoração do centenário da Brasileira, um grupo de frequentadores do café, tomou a iniciativa de lhe prestar um tributo, de uma forma alternativa e mais genuína. O desafio consistiu em realizar um trabalho até duas páginas, que poderia ser em forma de texto(s), fotografia(s), desenho(s), banda desenhada, etc., sobre o que a Brasileira representava para cada um, tendo como objectivo compor um possível retrato do café, pela altura do seu centésimo aniversário.
A resposta surgiu através de vinte e cinco trabalhos originais e heterogéneos, que são agora apresentados em formato de fanzine colectivo. Testemunho de uma forma peculiar de sentir a Brasileira, que ultrapassa a normal relação existente, num qualquer espaço comercial.

A preceder a apresentação do fanzine, está prevista a colaboração do Sindicato da Poesia, com a leitura de textos alusivos a cafés.
(a imagem apresentada em cima é da autoria de João Foldenfjord)

01/11/2007

DAVID SYLVIAN - Blemish

“Blemish” surge em 2003 produzido durante um curto intervalo de um mês, na sequência de uma paragem nas gravações do álbum dos Nine Horses. David Sylvian, num momento de mudança e transição na sua vida pessoal, que ocorre em simultâneo com o fim da longa ligação à editora Virgin, sente-se compelido a fazer um disco que rompe com o seu trabalho anterior e que vai inaugurar a sua editora pessoal.
As músicas resultam de sessões de improvisação realizadas em estúdio. Metade do disco é gravado completamente a solo e o restante com a decisiva colaboração do falecido guitarrista Derek Bailey e do austríaco Christian Fennesz.
O disco abre com a faixa que dá nome ao álbum, um “tour de force” de quase 14 minutos. A electrónica compõe o cenário seco e despojado sobre o qual David Sylvian canta no seu tom de barítono intimista. O ambiente é hipnótico e sombrio, de uma beleza etérea e glacial. Guitarras tratadas em desvario free. Absolutamente estarrecedor.
A segunda faixa "The Good Son" começa com umas notas esparsas da guitarra de Derek Bailey. As palavras saem a custo e muito lentamente. Sylvian desconfortável num spoken cheio de gravidade. Espasmos de guitarra omnipresentes apontando em direcção incerta. Tudo num equilibrio muito frágil e instável.
Em "The Only Daughter", Sylvian entoa uma espécie de mantra. Parece uma tentativa esforçada de se convencer que o fim da relação é inevitável. A base electrónica abstracta, cheia de estática a flutuar pontua uma atmosfera um pouco claustrofóbica. Os cortes, interferências e avarias alastram gradualmente para a voz deixando todas as fracturas em carne viva.
Na quarta faixa “The Heart Knows Better”, Sylvian parece discorrer sobre o quotidiano doméstico e familiar. As palavras surgem arrastadas num fundo de guitarras e digitália. A vida privada, a impossibilidade de comunicar e por fim a solidão num monumento de emoções e intimismo.
"She Is Not", é um pequeno apontamento de 43 segundos com a guitarra de Bailey a introduzir tensão por trás da lenga-lenga entoada por Sylvian.
Na faixa "Late Night Shopping", o ritmo é marcado pelo bater de palmas dolente, electrónica cheia de efeitos e no final a voz de Sylvian tratada e com reverb. Uma atmosfera sombria, de desconforto e aborrecimento. Pop, mas de outro planeta.
Em "How Little We Need To Be Happy" Sylvian encaixa magistralmente a vocalização no improviso de guitarra oferecido por Bailey.
A última faixa "A Fire In The Forest" pontuada pelas electrónicas de Fennesz é de um optimismo muito relutante, com Sylvian a terminar com os versos "There is always sunshine above the grey sky, I will try to find it, yes I will try."
“Blemish” é um daqueles discos difíceis que pode causar desconforto mesmo em alguns admiradores da obra de Sylvian. Não encontrando genealogia directa nem na obra anterior nem em lado algum, uma espécie de filho ilegítimo apenas comparável a discos inclassificáveis como “Rock Bottom” de Robert Wyatt, “Laughing Stock” dos Talk Talk, “Dynamite” de Stina Nordenstam e “Tilt” de Scott Walker. “Blemish” é um ovni estranho ao princípio, mas que gradualmente se entranha e vicia. Aqueles que tiverem a ousadia de entrar neste novo universo serão recompensados com um dos mais surpreendentes e inspirados discos editados no séc. XXI.
SamadhiSound, SS001 - 43'45" - 2003
Blemish // The Good Son // The Only Daughter // The Heart Knows Better // She Is Not // Late Night Shopping // How Little We Need To Be Happy // A Fire In The Forest // Trauma (bonus track Japan Edt).
Produced, composed, performed, mixed, engineered by David Sylvian, except tracks 2/5/7 guitars Derek Bailey. Composed by Derek Bailey and David Sylvian. Track 8 electronics and arrangement by Christian Fennesz. Cover portrait: Atsushi Fukui.

David Sylvian (concerto no Theatro Circo – Braga - 23/10/2007)
foto:
psombra

27/10/2007

esplendorosa borboleta de sangue

No inicio de setembro de 2005, de repente e sem aviso, o artista que ia expor na Velha-a-Branca cancela a exposição programada para esse mês. Não sendo possível antecipar a exposição seguinte e para a Velha não ficar com a galeria vazia, desafiei o valter hugo mãe para em conjunto improvisarmos uma intervenção que remediasse o imprevisto.
Assim, sem orçamento e com apenas 2 dias para conceber e concretizar o projecto, surgiu a exposição/instalação esplendorosa borboleta de sangue que ocupou a casa entre setembro e outubro de 2005 (o poema permaneceu ao longo das escadas durante bastante mais tempo).
Na altura, o valter preparava-se para ministrar o primeiro curso de escrita criativa, sendo já um poeta e editor com créditos firmados. Desconhecia, no entanto, que o valter era (é) um tipo multitalentoso e criativo, pois além de escrever e editar também desenha, declama e até canta magnificamente.
Há pessoas assim, generosamente tocadas pela mão do génio, e que admiramos e nos enchem de orgulho por sermos seus amigos.
Algumas das minhas influências para esta intervenção/instalação: Jenny Holzer, João Vieira, Laurie Anderson, Peter Greenaway, spoken word, vírus / infecção, portas de WC, Talk Radio – As Vozes da Ira, street art, W. Burroughs, K. Malevitch, Arnaldo Antunes, auto-da-fé, Fernando Calhau, Rui Chafes, Dante, Ana Hatherly, J. Beuys, gótico / austero / orgânico / mutante / transgressor, ideia de obra aberta: uma obra pode estar em movimento, criando a sua própria oportunidade para se alterar, para se modificar e até transformar completamente.
A intervenção/instalação ocupou diversos espaços desde o rés-do-chão até ao segundo piso. No rés-do-chão (ainda não havia a loja), estava gravado nas paredes o compromisso da velha, em forma de poema circular. Ao longo das escadas, no sentido ascendente, o poema às arrecuas escrito pela mão do valter acolhia e provocava os visitantes. Na galeria, a instalação “a angústia da página em branco”, possibilitava a participação das pessoas para escrever, desenhar, rabiscar, registar pensamentos profundos, amarfanhar ou até insultar. Na sala pequena localizada à entrada do piso do Bar estava a instalação “o fogo redentor”.

1. o poema às arrecuas
o poema subindo as escadas indica os caminhos superiores da casa e promete aventuras incríveis. prepara o espírito, não recuses, não te limites, não te assustes; nas fendas destas paredes vivem bichos que te admiram. gostam do teu porte, do teu entusiasmo e inteligência. se tiveres sorte podes ser escolhido para uma noite inesquecível entre bocas e patas, pêlos e agrilhões apaixonados.

2. o poema às arrecuas
o escaravelho de osso, a malvada fera dos buracos, o rastejante das unhas, o voador que fura, a esplendorosa borboleta de sangue, todos serão teus amigos, eufóricos e incansáveis com a intenção de te deixarem feliz. sê, pois, bem-vindo ao patamar dos licores e do jardim, e atenta nas luzes mais discretas, olhos medindo o teu corpo e abandono do teu corajoso coração.
fotos: Maximino Gomes

26/10/2007

Luis Buchinho

Catálogo da Colecção Outono/Inverno 1992/93
Apresentado na 3.ª edição da ModaLisboa realizada no Teatro Tivoli
Ilustrações: Luis Buchinho

24/10/2007

Bee Keeper / Milkshake

Depois do chamado boom da música moderna portuguesa nos anos 80, o início da década seguinte é marcado pelo surgimento de um movimento indie, influenciado pelas sonoridades de bandas como os Sonic Youth, Teenage Fanclub, Weezer, Built to Spill, Yo La Tengo, Pavement, Dinosaur Jr., Pixies, etc., e por uma ética “do it yourself” herdada do movimento punk.
Num tempo em que a edição discográfica estava acessível apenas a artistas consagrados e a valores seguros, os mais jovens sentiam grandes dificuldades para gravarem os seus registos. As bandas nasciam e passados alguns meses logo se desfaziam sem deixar qualquer rasto, o formato digital (CD) estava ainda longe da democratização, o vinil agoniava, as cassetes eram o suporte privilegiado para mostrar e ouvir música.
As bandas que cantavam em inglês tinham dificuldades acrescidas para chegar ao grande público. As editoras de maior dimensão não demonstravam grande interesse em gravar bandas como os Tina & Top Ten, Lesma, Red Beans, Pinhead Society, Toast, Gasoleene, No Noise Reduction, e muitas outras oriundas de locais descentralizados como as Caldas da Rainha, Alcobaça e Castelo Branco.
Neste contexto surge em 1994 o projecto editorial Bee Keeper da responsabilidade de Elsa Pires. Imbuída de um espirito assumidamente amador, no sentido de quem ama verdadeiramente aquilo que faz, a Bee Keeper gravou demotapes de bandas que estavam a começar a despontar, lançou um fanzine, promoveu concertos, estimulou a auto-edição, dinamizou projectos insólitos como a gravação de um disco de versões de uma banda relativamente desconhecida e sem discos gravados, etc. A Milkshake de Luís Futre, associa-se à Bee Keeper na promoção de espectáculos e na prospecção de novas bandas, tendo muitas edições o selo conjunto Bee Keeper/Milkshake.
Cada lançamento da editora possuia um cunho próprio resultante do cuidado artesanal colocado na apresentação e na distribuição que era feita maioritariamente por via postal, havendo sempre um forte envolvimento pessoal em todo o processo. A imagem gráfica da Bee Keeper caracterizava-se pelo uso recorrente dos recortes e das colagens, das fotocópias e dos letterings desenhados à mão, gerando um caleidoscópio de imagens e cores. As edições eram muito limitadas, raramente ultrapassando a centena de exemplares distribuídos num circuito marginal e restrito de melómanos, sem grandes preocupações com contratos, carreiras e ganhar dinheiro.
O sonho terminou abruptamente no Verão de 2002, quando a Elsa faleceu precocemente.
Este texto é uma modesta homenagem a Elsa Pires, ao seu amor pela música e à sua militância.
Segue-se uma tentativa de sistematização do catálogo da Bee Keeper, em inglês conforme a versão oficial da editora, complementada por diversas outras fontes. Algumas das edições não têm número de catálogo definido, e provavelmente existirão outras edições que não estão referenciadas na listagem, pelo que ficará em aberto, sendo sujeita a revisões e acréscimos até assumir uma forma mais definitiva.
· bee001 - Little“i like it if you feel lucky.”, 19’05’’ tape homeplayed, homerecorded in Elsa’s room, xylophone, tambourine. side A: 1. The Lock Ness Monster // 2. It's not // 3. Your guitar // 4. Forever. side B: 5. Dr. Smith // 6. Who loves you. Band: Elsa, Paulo. Edited in 1994.
· bee002 - Icecreamstar - issue one of this fanzine. in english, 52 pages, ren & stimpy, beatnik filmstars, bee bands...
· bee003 - Red Beans - 22 friend songs, 60m tape. punk + experimentalism sometimes.
· bee004 – Radioactive Man / Us Forretas Ocultos - “Slumber Party?” 60m split tape = strawberries and surf guitars.
· bee006 - Yolk / Damage Fanclub – “Happy-Go-Lucky” 60m split tape = spaced with girl vocals and some destruction
· bee007 - Toast – “toast”, 30m tape - angry + sincere, love + hate songs
· bee008 - Mammies & Kids – “pink elephant is gone?”, 30m tape pavement pop, tully craft + smudge covers.
· bee009 - TVT/Mad Crash – “do astronauts fart inside their spacesuits?”, 60m split tape, toy instruments, loops, noises, sampled voices + sounds
· bee010 - Mushroom Revolution – “this is not a candy mountain”, 30m tape, live girl powered songs
· bee011 - Pinhead Society – “have you slept with your tv set (you're looking better)”, 30m tape, sonic punky geniuses
· bee012/milk001 -
Teenagers from outer space – “the do it yourself pop explosion” - 15 portuguese bands on pink vinyl, all bee bands plus others, the 1st 500 copies sold out, this is the 2nd repressing of 300.
· bee013 - REF – “Laurie Love”, 20m tape, drum machine, very touch & go.
· bee014 - Watermelon - the first bee keeper compilation tape. 60m tape featuring all bee bands, a sample of what you can find on each tape, the best way to get to know bee keeper, it's an audible catalog wow. (none of these are on the Teenagers LP).
· bee015 - King Neptune's Favorite Band – “play with me”, 30m tape. songs that make you happy. girl/boy swirly vocals, amazing bass player, Catarina's the coolest guitar girl. Songs: Grey skies blue // Jump to You // Play With Me // 2 Steps From Death. Band: Nuno Ângelo (vocals/bass); Catarina Ângelo (vocals/guitar); Jorge Ângelo (drums); Luis André (guitar).
· bee016 - Marbles – “Sleepytime”. The Marbles were born August 1995, in the city of Montijo, suburbs of Lisbon. At first this project was thought to be a sequence of a before project called Mushroom Revolution. In 1996 the first demo was recorded and entitled Sleepy time. This demo expressed the pop side of the band. Songs: 1. Journey Around Saturn // 2. Face You With a Smile // 3. Strange Person // 4. Quite the Same // 5. Struggle // 6. It's so Sad // 7. My Revolution (bonus track). Still in 1996 a compilation of garage bands entitled “Teenagers from outer space”, was put out and included a track from the Marbles called “Quite the same”. Band: Hermano (vocals); Pedro e Osga (guitars); Glu (drums); Schmitt (bass).
· bee017 - Us Forretas Ocultos“Sweet Classic Dreams”. 26'06" demotape recorded in 1996. side A - 1. It's ok // 2. Did you hear that boys!! // 3. The venus cook book // 4. Be no good. side B: 5. GR-47-80 // 6. Where's Charlie's Dog // 7. Party (sugar tips) // 8. TGV // 9. Improv noise. Band: António Manzarra (guitar/vocals); Renato Feliciano (guitar/vocals); Luís Capinha (bass/vocals); Luís Ferreira (drums).
· bee018 - My Best Nose“?” - 21'24" tape featuring members of ex-Peach Bloom and Velveteen. They have a distinctive + very intelligent sound, this tape changed the face of Bee Keeper. The portuguese Versus. Yellow tape recorded in Latina Europa Estúdios in 1996 by João M. and Luís. side A: 1. Bus // 2. The Cat's Names // 3. I got cable // 4. Madness and Happiness. side B: 5. Indians // 6. Things to do in 5 minutes // 7. The Computer Game. Band: Paulo; Lena; Bruno Durte.
· bee019 - Everground – “Acid Candy” - finally the 1st all-girl band on this label! They're areound 15/18 years-old, play amazingly, Carla has a really powerful voice + tons of energy live. Also a single very soon.
· bee20/milk02 - Supermarket Music/This is not a Damage Fanclub Tribute - Compilation CD with 21 bands. it's a 2 in 1 as the first 10 bands cover Damage Fanclub songs + the other 11 do songs of their own. Come with a 26 page "book". Everything started when we thought about doing a Damage Fanclub record. But, eventually, they broke up and we thought it would be fun doing them a tribute album. Some bands were already doing some Damage covers, cuz they were always a bit carismatic, although we really don't know why. Almost all the bands we talked to liked the idea and we got 10 cover songs. At the same time we heard bands that we would like to have on record, but playing their own musics, and so we ended up with a kind of double CD.
Playing Damage Fanclub covers: JUHX; Toast; Pinhead Society; Bunnie; Us Forretas Ocultos; Gasoleene; Stereoview; More Republica Masonica; Radioactive Man; X-Acto.
Playing their own songs: Dr. Frankenstein; Captain Clown; Acid Flowers; Marbles; Teenage Bubblegum; Jamie; Blister; Velveteen; Timmy's Milk; Alien Picnic; Duendes do Umbigo. Edition of 500.
· bee21/milk03 - Gasoleene - single on red vinyl. 3 songs including a version of Little's Loch Ness Monster sung by Elsa. Handmade sleeves. Edition of 100.
· bee23 - Captain Clown – “Seven superheroes in a pink driven ambulance with their favorite taxi driver” - delicious addictive pop sounds. It's great cuz they have 3 vocalists and their lyrics are always about true stories. Capt. Clown features the brothers of som Mammies&Kids kids.
· bee24 - Alien Picnic – “For heaven's sake” - They're from Castelo Branco just like Captain Clown. Soft pop with tasty boy/girl vocals. That teenage indie pop touch...
· bee25 - Galore – “Take two” - this is the band of my friend Miguel Afonso. Simple songs, a bit too primary sometimes, 3 of these songs rock, the other 3 so-so. The band features a member of Mary Jane.
· bee26 - Blister – “Crumb of happiness” - a total surprise, it's one of those tapes where it's not possible to choose wich song is the best as they're all fucking AMAZING!
· bee27 - Mary Jane - this is the latest Bee Keeper surprise release! A blasting girl quintet, they're the first band to enter the Beehive by mail, this is serious stuff!
· bee30/milk04 – Toast – “Try me” – CD with 11 songs, produced by Rafael Toral, 1997. All songs are hits, it's hard to choose your favorite. Probably "Brightest Star" will be turned into a videoclip and have it broadcasted on Spray. Short 2 minute songs from this charismatic kids.
· bee?? - My Best Nose – “Details of Domestic Life” - 7'' single , co-released with the band - Bee Keeper/Milkshake/My Records. I call their sound distinct cuz they don't sound like any other indie rock band in Portugal. Features members of Velveteen and 3 ex-Peach Bloom members. Edited in 1997, 100 copies on yellow vinyl.
· bee?? - Everground - 7" single by the 4 riot girls Everground, produced by Jorge Imperial, bee keeper/milkshake records, 1997. 100 copies.
· bee?? - My Best Nose – "Thank God For Women And Coke", CD by My Records/Bee Keeper/Garagem. 1997.
· bee?? – X-Acto – “The new child” - 7" single by ataque sonoro/bee-keeper/milkshake. Blue record with the songs "anchor", "new child" and a Embrace cover.
· bee keeper – Jaguar – s/t – 11 songs in cd recorded in 1999. Mens and womens, dance to the beat! This is the result of some experiences Jaguar has tried throughout a year of existence or so. All the members have been “famous” in several so-so half-famous bands. Some songs were recorded at home, on 4-tracks, others at Margem Sul Estúdio, STS Studio and Stage 2 – UNI: hates, loves, desires, peoples, places, mistakes, lives, fornication. When playing live, they sometimes make up the lyrics as they sing along to those groove-box-multi-effect-pedal-organ-fuelled songs. The Jags are: Filipa+João Valente = vocalz, tambourine; Nuno = bass; João Osório + Eduardo = guitarz; Rodrigo = drumming, grooveboxing
· bee?? – The Sullens – 7" single recorded in STS Estúdios in Sacavém. side A: 1. Kerosene // 2. Petrified; side B: 3. Seringa // 4. Nokesh Blues. Edited in Sept. 2000.

21/10/2007

Amanita Citrina - Mosteiro de Tibães - Braga - Outono 2002

19/10/2007

A Europa é feita de cafetarias, de cafés. Estas vão da cafetaria preferida de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa frequentados pelos gangsters de Isaac Babel. Vão dos cafés de Copenhaga, onde Kierkegaard passava nos seus passeios concentrado, aos balcões de Palermo…” - George Steiner

Quando soubemos que a Brasileira comemorava em 2007 o seu centésimo aniversário, sentimos que a celebração desta efeméride, não nos podia deixar indiferentes. Estávamos a festejar um ano especial, uma data que também era, de certa forma nossa.
Este café que tem feito parte e é uma parcela importante das nossas vidas. Que tem sido um espaço privilegiado de acolhimento, de encontro, de aprendizagem, de emoções, de vivências singulares, de afirmação cultural e afectiva. Que é um lugar matricial, onde muitas vezes foi e é palco de episódios que preenchem algumas folhas brancas dos diários das nossas vidas. Tem algo de especial, de diferente, talvez o facto de combinar o “moderno” com o “antigo”, talvez a mistura do cosmopolitismo com o provincianismo, talvez a soma consciente (ou inconsciente) da eloquência com a banalidade, talvez a mistura do inconformismo com o marasmo, talvez a combinação de tudo.
A Brasileira tem sido moldada pelas pessoas, pelos empregados e donos, pelos seus ritmos e rotinas. É geradora de quotidiano, sistematiza os horários e os hábitos, configura o quotidiano, mas ao mesmo tempo, deixa sempre a possibilidade de acontecer o acaso. O peso da idade e a sua “patine”, não nos deixam enganar: - estamos perante um dos corações, perante uma das principais salas de estar da cidade de Braga. Que foi e é simultaneamente, testemunha directa e protagonista, fonte e guardiã de mapas de memórias, de utopias, das pequenas e grandes histórias da cidade, assumindo um incontornável estatuto de referência, um verdadeiro clássico.
Era o motivo e o momento certo para se prestar um tributo, para se oferecer uma mais que merecida prenda. Mas esta iniciativa devia ir mais além das homenagens habituais, das comemorações formais. Deveria ser um projecto paralelo, mais alternativo e genuíno, mais informal, que partisse da iniciativa dos frequentadores da Brasileira.
Depois de várias conversas à mesa do café surgiu a ideia de se organizar um projecto colectivo, em forma de fanzine, de número único. Como condição apenas ficou estabelecido o formato do fanzine e o número máximo de páginas de cada trabalho. Não se impôs limites à forma de abordagem, desde que fosse concretizável num fanzine. O trabalho podia ser individual ou colectivo, ser escrito em prosa ou poesia, ser um desenho, uma pintura, uma banda desenhada, uma fotografia, etc. Podia ser uma opinião, a manifestação de um sentimento, o contar um episódio, etc. sempre algo, que estivesse relacionado, de alguma forma, com a Brasileira.
Assim, foram convidados informalmente alguns frequentadores que marcam a geografia humana da Brasileira. Sem haver o intuito de convidar apenas “artistas”, os convites foram feitos, numa primeira fase, ao nosso círculo mais próximo, depois alargou-se a outras pessoas e aos empregados e donos do café.
Em resposta ao desafio proposto foram realizados vinte e cinco trabalhos originais, que agora apresentamos e constituem um panegírico colectivo, multiforme, fornecendo uma espécie de visão caleidoscópica do café. É um documento que materializa a nossa ligação a este espaço de cumplicidades e é um testemunho da forma peculiar de sentirmos este café, que vai mais além que a simples relação que existe, num qualquer espaço comercial.
Ricardo Fiúza, Set 2007