15/09/2007

O Melhor Café

O livro “O Melhor Café” editado em finais de 1996 constitui uma bela homenagem à Brasileira bracarense feita através das fotografias de Alfredo Cunha e das palavras de Pedro Rosa Mendes.
O livro abre com um texto, o mais longo de todos, que enquadra historicamente o surgimento d’A Brasileira em 17 de Março de 1907, iniciativa de Adolpho de Azevedo, próspero negociante do Porto. Nesta fase, a escrita segue de perto a pesquisa documental feita pelo autor, de onde transparece a Braga imutável, ontem como hoje, «a província como reserva cinegética do aborrecimento e os cafés como única alternativa de evasão à boçalidade medieval.» A Brasileira veio juntar-se a um punhado de outras casas de café e bilhares, onde os bracarenses buscavam convívio e jogo.
A ambiência económica, social e política da cidade no início do séc. XX surge enredada no quotidiano do café. O autor utiliza Joaquim Chaves (1903-1977), o cliente mais famoso da Brasileira, com direito a placa de mármore na parede, para servir de cicerone em várias narrativas sobre as décadas de Salazar e da PIDE.
Os textos aparecem intercalados com as fotografias, nunca se misturam. A um bloco de escrita segue-se um bloco de fotografias a preto e branco, sem qualquer tipo de texto ou legenda. A cada imagem está reservada uma página inteira, aparecendo mais esporadicamente uma fotografia a estender-se por duas páginas.
As imagens foram recolhidas em cinco dias do Verão de 1996, e retratam a fauna frequentadora do café, os empregados, os velhotes, o engraxador de sapatos e também as idiossincrasias do espaço e os pormenores do mobiliário. As fotos dos andares de cima, onde estão depositados os velhos bilhares e o mobiliário em desuso, são fantasmas dum tempo remoto que já não pode ser reencontrado.
Os quatro textos seguintes são curtos e têm um registo mais memorialistico, fruto das conversas desenroladas à mesa do café. Pretende-se oferecer múltiplos pontos de vista: do patrão, do empregado com mais de três décadas de casa, da velha viúva que é cliente diária há mais de 40 anos e fica perdida quando a Brasileira encerra para descanso semanal, e a Brasileira como ponto de encontro antes de jantar duma certa elite cultural, que tem como regra de ouro nunca se sentar na parte de baixo do café, embora não saiba explicar porquê?...
Das veredas da memória surgem histórias como a da actual Brasileira já ter sido dois cafés, em cima a Brasileira, e em baixo, pela Rua de S. Marcos o Café Sporting. O aparecimento da Brasileira Nova, em frente do outro lado da rua, sendo a Rua S. Marcos apelidada de “linha Maginot”: de um lado os progressistas, do outro os germanófilos.
As várias fases do café, dos padres Vaz, e dos outros clérigos em dias de feira, os clientes diários com horário certo e escrupulosamente cumprido, as coscuvilhices sussurradas e a maledicência longamente cultivada, o relance embaciado para o rio de gente que escoa pela rua abaixo, etc.
No ano da comemoração do centenário da Brasileira, lamenta-se que esta obra esteja indisponível nas livrarias, pois é um retrato de valor inestimável dum determinado microcosmos que metaforiza a sociedade bracarense do último século.
Alfredo Cunha e Contexto Editora, 1996
Textos de Pedro Rosa Mendes
Impresso em Novembro de 1996
116 págs. - 24,2 x 29 cm

13/09/2007

Fundação Utópica

A Fundação Cultural Bracara Augusta foi criada em 1996 pela Câmara de Braga, a Universidade do Minho, a Universidade Católica e o Cabido de Braga com a finalidade de realizar e/ou apoiar iniciativas de carácter cultural e social. Na realidade, nunca percebi muito bem para que é que serve esta Fundação, que tem como Presidente Maria do Céu Sousa Fernandes e como Presidente do Conselho de Administração (??) o inevitável Rui Madeira.
Anunciaram agora o lançamento de um novo ciclo de conferências, a primeira das quais subordinada ao tema: “A Utopia: uma leitura actual”. Sobre o tema Rui Madeira afirma: “os seres humanos não podem viver fora das utopias. É o que nos alimenta”. Maria do Céu Fernandes, mais comedida, questiona se “será possível um mundo novo?”.
Nada me deixa mais tranquilo e esperançado num futuro melhor do que ver a bandeira da utopia empunhada por tão extremosas mãos.
(foto sacada no site do Diário do Minho.)

BRENDAN PERRY - Eye of the Hunter

Com a dissolução dos Dead Can Dance em 1998, findou um dos projectos mais emblemáticos da editora 4AD. Os Dead Can Dance, juntamente com os Cocteau Twins e os This Mortal Coil formavam o núcleo central duma estética assente numa sonoridade gótica etérea e numa imagem gráfica muito cuidada a cargo Vaughan Oliver e da V23.
Ao contrário de Lisa Gerrard, antiga companheira nos DCD, que muito tem editado desde o final do grupo, o disco Eye of the Hunter de 1999 é o primeiro e até agora, único registo a solo de Brendan Perry. Além deste disco, participou também no tributo a Tim Buckley Sing a Song for You em 2000 e mais recentemente numa música do álbum Clouds Without Water dos ZOAR. Enquanto Lisa Gerrard anda perdida num esoterismo new age completamente inconsequente, Brendan Perry enveredou por um estilo mais clássico. O imaginário medieval, mitológico e encantatório ainda está presente, mas sem os arremedos épicos dos DCD. Os cantautores como Leonard Cohen, Scott Walker, Nick Cave, Van Morrison e especialmente, Tim Buckley, são um referencial importante para o autor. O disco apresenta sete músicas originais e uma versão do tema "I Must Have Been Blind" do referido Buckley.
A voz grave e melódica de Perry assume um papel de destaque num disco essencialmente acústico e com um som muito límpido. O tom geral do disco é melancólico e nocturno, com baladas, alguns elementos folk-country e muito blues. O tema “Voyage of Bran” tem elementos orientalizantes ainda reminiscentes dos DCD. “Medusa” tem naipes de cordas e ritmo de valsa lenta. O final em falsetto de “Sloth” é uma verdadeira surpresa, quebrando alguma solenidade do disco. A percussão só aparece em "The Captive Heart", mas mesmo assim de forma muito esparsa. O disco termina com o tema “Archangel”, espécie de balada fúnebre a lembrar o último Scott Walker.
Eye of the Hunter é um disco subestimado, mas que o tempo consagrará como um clássico.
CAD 9015 - 04/10/1999
Saturday’s Child // Voyage of Bran // Medusa // Sloth // I Must Have Been Blind // The Captive Heart // Death Will Be My Bride // Archangel
Brendan Perry – Voice, 12 String & Electric Guitar, Mandolin, Keyboards // Liam Bradley – Drums, Cymbals // Martin Quinn – Pedal Steel Guitar // Glen Garrett – Electric and Upright Bass // Michael Brunnock – Backing Vocals on Saturday’s Child
Produced, Engineered and Art Direction: Brendan Perry

11/09/2007

SWATCH - "Deux Amoureux"

Em 1988, a Swatch lançou uma edição de três relógios assinados por outros tantos artistas ligados à Fundação Maeght: Valerio Adami, Pol Bury e Pierre Alechinsky.
O artista italiano Valerio Adami apresentou o relógio “Deux Amoureux” onde utiliza com grande mestria o seu traço característico para, num gesto de expressividade e precisão, representar um casal a beijar-se. O desenho é sempre o ponto de partida do trabalho de Adami. Mesmo quando utiliza a cor, esta está sempre confinada aos limites do traço de contorno.
O artista não procura representações realistas, mas sim captar momentos carregados de intensidade e significado. As suas obras são racionalizadas até ao mais ínfimo pormenor, não havendo lugar para elementos desnecessários. Toda a composição gráfica obedece a um propósito bem definido, todos os elementos cumprem uma determinada função essencial.
A representação de casais é recorrente no trabalho de Adami, sejam cenas de
origem mitológica ou do quotidiano. As figuras enlaçam-se criando uma entidade-nova. A fusão dos corpos não resulta, no entanto, em extase de paixão, ressaltando antes uma certa melancolia transcendental.
No relógio "Deux Amoureux", o contraste entre o branco do desenho e o preto do fundo (em negativo), reforça o simbolismo do momento que se eterniza no tempo.
A cidade de Braga recebeu a excelente exposição “A Mão que Pensa, Desenho e Narrativa” de V. Adami, apresentada no Museu Nogueira da Silva entre 24 de Novembro e 18 de Fevereiro de 2006.
Modelo: "Deux Amoureux" (GZ 111) - 1988
Autor: Valerio Adami (Bolonha, 1935)
Edição: 5.000 exemplares

07/09/2007

Bienal de Cerveira - um modelo esgotado

Inaugurou em meados de Agosto a XIV Bienal Internacional de Arte de V.N. de Cerveira, prolongando-se até ao dia 29 de Setembro. Perto de comemorar 30 anos de existência (um dos eventos mais antigos nesta área em Portugal), a Bienal é subordinada ao tema “As novas cruzadas” apresentando várias exposições em Cerveira e nas localidades limítrofes de Valença, Caminha, Paredes de Coura, Melgaço, Monção e em Tui e Goian-Tomiño. Durante a Bienal decorrem também diversos eventos paralelos como concertos, colóquios, prova de vinhos, conferências, lançamento de um livro, etc. De tudo isto, pouco justifica a visita.
Do leque de exposições apresentadas na Bienal, destacam-se apenas as instalações de Zadok Ben-David, vencedor do Grande Prémio, e a de Pascal Nordmann, além, evidentemente, do painel “Ribeira Negra” de Júlio Resende. Ao nível dos eventos paralelos à Bienal, também nada de novo ou de muito relevante é apresentado.
Com o tema “As novas cruzadas”, a organização pretendeu apelar à natural contestação da arte e dos artistas, desafiando-os a criarem obras onde sejam evidenciados os conflitos entre o Médio Oriente e o Ocidente e as suas implicações sociais, políticas, religiosas e económicas. A formulação escolhida de “novas cruzadas”, já encerra em si todo um programa, evidenciando a adopção da perspectiva que o agressor é o Ocidente (cruzados) e o Médio Oriente a vítima pacífica e inocente.
O centro da Bienal é o Fórum Cultural de Cerveira, onde são apresentadas as obras do concurso, os artistas convidados, o painel de Júlio Resende e a exposição de homenagem ao casal Maeght. O modelo (ou a falta dele) adoptado na montagem da exposição está completamente desadequado, pois apresenta-se uma grande quantidade de obras, para “encher o olho” e dar ideia de grandiosidade, mas obtém-se o efeito contrário: trabalhos com qualidade são anulados por muitos outros medíocres colocados ao seu lado. O que se retém no final é uma impressão geral de fraca qualidade. O grande amontoado de obras não provoca qualquer inquietação ou reflexão, mas apenas uma overdose visual.
Também não se percebe o que estão lá a fazer as obras dos artistas convidados, pois não têm qualquer relação com a temática da Bienal. Fica-se com a ideia de que os nomes de Albuquerque Mendes, José de Guimarães, Miguel Palma, Gerardo Burmester, etc. estão lá apenas para darem alguma visibilidade e legitimação artística à Bienal.
O mesmo acontece relativamente à exposição de homenagem à Fundação Maeght, que dispõe de uma das mais importantes colecções de arte moderna de França, com obras de Giacometti, Miró, Bonnard, Braque, Chagall, Léger, Kandinsky, entre outros. Quem julga que vai poder apreciar obras originais daqueles artistas sairá defraudado, pois o que se apresenta são meras reproduções/litografias. Uma vez mais, é utilizado um nome sonante para servir de chamariz.
Vale a pena visitar a instalação “O Espirito do Lugar” de Pascal Nordmann, vencedor do Prémio Revelação, no salão dos Bombeiros de Cerveira. Estranha-se, no entanto, a atribuição do prémio, pois o artista já tem 50 anos de idade e esta instalação tem sido apresentada desde 2004, não se vislumbrando também qualquer relação com o tópico da Bienal. Em Caminha está a instalação “Black Field” de Zadok Ben-David, justo vencedor do Grande Prémio da Bienal. O artista israelita, doou os 10 mil euros do prémio para serem atribuídos a jovens artistas para apoiar a sua formação. As outras exposições espalhadas por Cerveira e arredores são maioritariamente constituídas por trabalhos académicos de estudantes de artes, arquitectura e design. Mesmo considerando que é meritório o apoio aos jovens não se compreende a pertinência no contexto da Bienal, das exposições “Arquitectura Design e Ecologia”, da exposição dos alunos da Escola de Artes de Coimbra, da exposição dos alunos de Arquitectura da Escola Gallaecia, etc. Também aqui, parece que houve apenas a intenção de apresentar exposições “a metro”, para dar a ilusão de que a Bienal tem uma dimensão regional. Mais uma vez, obtém-se um efeito perverso: exposições completamente deslocadas da temática da Bienal, esvaziam o seu sentido e relevância.
Esta edição da Bienal conta com um orçamento de 500 mil euros (cerca de 100 mil contos, na moeda antiga), repartidos pela autarquia (35%), pela empresa DST (30%), Ministério da Cultura (5%), e o restante dividido por diversos patrocinadores públicos e privados. A organização vem afirmando que o adiamento do reconhecimento da Fundação da Bienal e o reduzido suporte financeiro do Ministério da Cultura dificultam a angariação de mais e melhores apoios e uma maior internacionalização.
Sendo louvável a persistência da Bienal numa região periférica e desfavorecida, julgo que com um orçamento tão significativo seria de esperar muito mais qualidade, relevância e ambição.

Esta foi a última Bienal dirigida por Henrique Silva, que se retira após quinze anos à frente do certame. Para o substituir foi designado Augusto Canedo. Espero sinceramente que o novo director consiga reunir uma equipa capaz de repensar e refundar a Bienal, apresentando um novo formato mais consentâneo com o nosso tempo e expectativas. Cerveira e o Minho bem o merecem.
(também publicado na edição de 10/09/2007 do jornal Diário do Minho)

Memorabilia Bienal de Cerveira

05/09/2007

A BRASILEIRA COM CEM*

O café “A Brasileira” foi inaugurado em Março de 1907, comemorando este ano o seu centésimo aniversário. É a altura certa para se fazer uma homenagem a um dos cafés mais emblemáticos e com mais história da cidade de Braga. Embora aberto a todos, o simples facto de, por opção, uma pessoa não o frequentar, frequentar esporadicamente ou assiduamente, é uma tomada de posição, consciente ou inconsciente, de cariz social, cultural e afectiva. O cliente da Brasileira, está a inscrever, a filiar a sua opção numa determinada geografia humana da cidade.
O projecto que propomos é um convite aos frequentadores do café, para realizarem um trabalho com duas páginas, no máximo, sobre o que “A Brasileira” representa para cada um de nós. Os trabalhos podem ser textos, desenhos, fotografias, banda-desenhada, etc., com os quais se editará um fanzine colectivo, de número único, cuja publicação está prevista para o mês de Outubro.

Os trabalhos devem ser entregues até 31 de Agosto de 2007, com a indicação do nome(s) do(s) autor(es), no café “A Brasileira” ou na “Velha- a-Branca” (loja do r/c), onde existe uma pasta para a recolha dos trabalhos. Podem também entregar o trabalho em formato digital, enviando-o para um dos seguintes endereços:
aacs@portugalmail.pt - ricardofiuza@clix.pt

Trabalhos recebidos de: João Catalão, Nuno Gomes, Jorge Moreira, Sebastião Peixoto, Bento Duarte, Vítor Costa, Vítor Silva, Paulo Bonito, Ricardo Fiúza, Alexandre Gonçalves, Madalena Dória, Esmeralda Duarte, César Taíbo, Paulo Trindade, Nuno Cláudio, Sofia Saldanha, Adriano Faria, Pedro Guimarães, Nuna Poliana, Kid, Helena Carneiro, Cláudia Bueso, Manuela & Milucha, Miguel Meira, Paulo Nogueira.

Última chamada para: Alexandre Cristóvam, Paulo Pi, Luís Tarroso, Carlos Veloso, José Delgado, Abel, Rui, Carlos Knorr, Pedro Fafe, Roque, Rui Mendes, Camilo, Vânia, Eduardo Bueso, Rui Pires, Carlos Corais, Adelina Lopes, João Estrada, Betinha, Teresa Silva, Marta Catarino, Rita Costa, Iva Dias, Ana Aguiar, Catarina Miranda, Joana Cordeiro, Nandão, Rui Oliveira, Mª Jesus Condeço, Rui Carvalho, Francisco Areias, João Paulo Moreira, Jorge Ribeiro, Inês Vinagre, Jaime Manso, entre outros.

*(título provisório)

04/09/2007

Stencil em Odeceixe - Aljezur - Agosto de 2006

03/09/2007

Fanzine editado no final do curso de banda desenhada organizado pela Velha-a-Branca – estaleiro cultural entre Abril e Maio de 2005. O curso foi orientado por Carlos Dias Tavares, sendo composto por dez sessões. Foram apresentados sete trabalhos para publicação no fanzine. A primeira edição de 75 exemplares, denominada Deluxe era impressa a cores e esgotou rapidamente. No dia do lançamento, foi organizada uma tertúlia sobre banda desenhada que contou com a participação do formador Carlos Dias Tavares, de Arlindo Fagundes, de Pedro Morais e de Paulo Patrício.
A segunda edição de 125 exemplares, denominada Pop, diferia da primeira pois tinha capa a cores, mas o miolo era a preto e branco.
Como é habitual em publicações colectivas de final de curso, observa-se uma grande diversidade de estilos e técnicas e algum desequilíbrio ao nível da qualidade dos trabalhos apresentados. De qualquer forma, este tipo de edição é meritório, pois constitui para os participantes um desafio e uma primeira oportunidade de mostrarem publicamente o seu trabalho. Era importante que este tipo de iniciativas tivesse seguimento e surgissem novos trabalhos e novos autores. Mais ainda, numa cidade onde o marasmo ao nível das publicações amadoras é total.
Ambas as edições estão esgotadas há bastante tempo. Tenho alguns (poucos) exemplares extra que poderei estar interessado em trocar por outros fanzines.
Participantes: Paulo Felgueiras com “Faces de Paixão” - (4 págs. a P&B); Rui Silva com “Bang Bang” – (2 págs. a P&B); Adelino Pereira com “Devolver” – (3 págs. a cores); Guilherme Lopes com “Super Patanisca – (8 págs. a cores); Patrícia Braga com um trabalho sem título (12 págs. a cores); Kiko Pantuchina+Beta Gon com “O Rock chegou a Roças” (6 págs. a cores); e Raquel+Hugo Ramos com “Tomo no Boken” (10 págs. a P&B). Desenho da capa: Carlos Dias Tavares; Paginação: Guilherme Lopes; Arranjo gráfico da capa: Helena Carneiro. Edição: Velha-a-Branca - estaleiro cultural, Braga, Julho de 2005.

02/09/2007

Arte Total

Dança contemporânea pela Arte Total a assinalar o encerramento da exposição on the other hand / sombra_clara em 16/Jun/2007.
fotos: João Acciaioli Catalão (c)

01/09/2007

Hector Babenco - Pixote - A Lei do Mais Fraco [1981]

"Pixote - a lei do mais fraco" é a terceira obra do realizador Hector Babenco, nascido na Argentina em 1946, mas radicado no Brasil desde os anos setenta. Babenco notabilizou-se depois com filmes como "O Beijo da Mulher Aranha", que valeu um Óscar para William Hurt, "Ironweed" (com Jack Nicholson e Meryl Streep) e "Carandirú".
"Pixote" é baseado no livro “Infância dos Mortos” do escritor José Louzeiro, relatando a história de Pixote (Fernando Ramos da Silva), um rapaz com dez anos, filho de pai incógnito. O filme começa num tom documental, com o realizador a contextualizar a situação económica, judicial e social do Brasil, com uma favela de S. Paulo como pano de fundo. Influenciado pelo neo-realismo italiano (De Sica, em primeiro lugar), e por filmes como “Zero em Comportamento” de Jean Vigo, “Os Olvidados” de Luís Buñuel e “Os 400 Golpes” de François Truffaut, o realizador Hector Babenco filma praticamente tudo com actores não profissionais em cenários e situações de grande realismo.
Após a introdução inicial, a história passa para dentro de um reformatório juvenil onde Pixote é internado, para aí completar a sua "educação" no convívio com todo o tipo de delinquentes. Pixote junta-se a outros menores como Fumaça, Lilica, Dito e Chico, mais por falta de opção do que por convicção. A violência, estupro, corrupção e demonstrações de força, bem como as pequenas alegrias de um jogo de futebol, pontuam o quotidiano dos jovens reclusos.
As mortes de Fumaça e do namorado do travesti Lilica, obrigam o grupo a escapar do reformatório e a partirem para o Rio de Janeiro, iniciando uma nova etapa em jeito de road movie. A narrativa passa do confinamento
total do reformatório para os grandes espaços, para as avenidas consumistas e para as praias solarengas. O grupo numa vertigem hedonista e amoral, vai aprimorando os seus esquemas e crimes, culminado no assassinato de Débora, vendedora de droga, por Pixote que logo de seguida vai jogar flippers.
Hector Babenco desafia-nos a olhar Pixote e seus companheiros, não como crianças sem rumo, mas como protagonistas de um rumo-outro, construído na brutalidade e no antagonismo diante do mundo. Amores, cumplicidades, raiva, dúvidas - os jovens criam nas ruas uma nova "família", partilhando banhos nos chafarizes públicos e os cobertores à noite.
A interpretação de Fernando Ramos da Silva é brilhante, conseguindo representar um Pixote simultaneamente inocente e assassino. Fernando, contudo, não conseguiu manter-se a trabalhar como actor e voltou à criminalidade. Acabou morto pela polícia aos 19 anos, deixando esposa e dois filhos. Em 1988, Nick Cave a residir no Brasil, dedica o disco “Tender Prey” a Fernando Ramos da Silva/Pixote.
Brasil, 1981, Cor, 123min - Realizador: Hector Babenco
Produção: Paulo Francini - Argumento: Hector Babenco/Jorge Duran - Fotografia: Rodolfo Sánchez - Montagem: Luiz Elias – Banda Sonora: John Neschling
Actores: Fernando Ramos da Silva, Marília Pêra, Jardel Filho, Jorge Julião, Rubem de Falco, Elke Maravilha, Tony Tornado, Gilberto Moura, Edilson Lino…

31/08/2007


30/08/2007

Jarra "Shiva" de Ettore Sottsass - 1973 (18x7x24,5cm)

27/08/2007

Uma estátua em bolandas

Em reunião recente, as Juntas de Freguesia urbanas de Braga tiveram oportunidade de expressar os seus anseios e ambições a Mesquita Machado. Do rol apresentado ao Presidente da Câmara, a pretensão do Presidente da Junta da Cividade de retirar a estátua de D. João Peculiar do Largo de S. Paulo tem merecido ampla repercussão pública.
O Presidente da Junta da Cividade, Peixoto dos Santos, alega dois motivos principais para justificar a sua pretensão, um de ordem estética, outro de ordem moral: - a escala da estátua não se adequa ao Largo de S. Paulo, ficando “perdida” no meio daquele espaço; - o báculo de forma fálica, desagrada à população em geral e às religiosas que passam frequentemente no local, em particular.
Ao longo do tempo tem ocorrido diversas polémicas em redor de estátuas, monumentos e outra iconografia colocada em lugares públicos. A polémica aparece, invariavelmente, associada à Igreja: - todos se recordam dos casos das pirâmides do monumento ao Papa João Paulo II, da projectada estátua do Cónego Melo, dos painéis heréticos do altar da Cripta do Sameiro e agora a estátua do Arcebispo D. João Peculiar.
Não existindo nenhuma imagem conhecida do antigo Arcebispo de Braga, contemporâneo do rei D. Afonso Henriques, o escultor Raul Xavier deixou a sua imaginação criativa à solta na execução do trabalho. A estátua de corpo inteiro em tamanho real apresenta diversas particularidades, como sejam os traços fisionómicos de “irredutível gaulês”, uma mitra minúscula que mais parece um elmo de guerreiro, as mangas arregaçadas, e com especial destaque o báculo que tem uma evidente forma de pénis.
A estátua foi encomendada pela Câmara de Braga para ser colocada no Largo D. João Peculiar, contíguo à Igreja da Misericórdia e à entrada lateral da Sé Catedral. O pedestal em pedra esteve mesmo colocado no local durante imenso tempo, mas a estátua nunca lá foi colocada. Compreende-se bem porquê.
Qual não terá sido a reacção das autoridades eclesiásticas quando viram a estátua pela primeira vez?...Rapidamente previram a polémica que causaria inserida num dos locais mais nobres e visitados da cidade. Para mais, quando a polémica sobre a estátua do Cónego Melo ainda estava bem acesa. De forma prudente, as autoridades promotoras da estátua decidiram deslocá-la para um local mais discreto.
Como o Largo de S.Paulo tinha sido transformado numa eira, que é a marca registada das intervenções da Câmara nos Largos e Praças da cidade e não havendo no local qualquer adorno ou chafariz foi lá inaugurada em 05 de Dezembro de 2003 a estátua de D. João Peculiar. À parte alguns comentários jocosos e risinhos trocistas dos observadores mais atentos, a coisa não provocou grande alarido.
Entendo que é importante reflectir e discutir sobre o espaço público e as diversas opções para a sua ocupação. No entanto, estranho que só agora, passados quase quatro anos da inauguração, o Presidente da Junta venha expressar publicamente o seu desagrado. Mais se estranha ainda que tenha usado uma imagem do Largo de S. Paulo com a estátua enquadrada para a capa de um folheto editado recentemente pela Junta.
O Presidente da Junta da Cividade, em nome da harmonia do local e dos bons costumes, quer que as autoridades competentes retirem a estátua do local e a recoloquem no Largo D. João Peculiar. A Igreja, pela voz do Bispo Auxiliar D. Antonino Dias, já disse que não quer saber do caso, que “a Câmara é que encomendou a escultura e que a pagou. A diocese nunca foi ouvida”.
Por seu lado, Mesquita Machado além de ter pago com dinheiros do município uma estátua sem concurso, sem critério e sem gosto, ainda afirma à Agência Lusa que desconhece quem é o proprietário da estátua e, com sobranceria, “que não tem tempo a perder com essas coisas”.
Peixoto dos Santos aspira obter um fontanário para substituir a estátua de D. João Peculiar. Esperemos que não receba em troca o chafariz renegado pela Junta de S. João do Souto na mesma reunião com o Presidente da Câmara.
(também publicado na edição de 29/08/2007 do jornal Diário do Minho)
Na sequência da publicação deste texto, o Presidente da Câmara de Braga assegurou ao jornal Correio do Minho (30 de Agosto) que a autarquia “não pagou, não encomendou, nem escolheu a estátua”. Esclareceu ainda que o antigo Deão do Cabido da Sé, Cónego Melo, “é que pode explicar melhor quem mandou fazer e quem a pagou”.
Estes novos desenvolvimentos merecem três comentários:
- folgo em saber que a amnésia de Mesquita Machado foi passageira;
- as novas declarações do presidente da Câmara contradizem completamente as proferidas antes por D. Antonino Dias. Isto é tanto mais grave porque se trata de um alto dignatário da Igreja Católica. Em quem podemos acreditar?;
- definitivamente, as estátuas não proporcionam grandes recordações ao Cónego Melo.

25/08/2007

A Brazileira

Colecção de Calendários Bolso de 1988 - Tip. Oliveira - 1000 ex.