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10/07/2008
labor e assombro
Depois de ter sido durante os seus tempos áureos a Casa Mãe da Congregação Beneditina de Portugal e do Brasil, depois de um período de negligência, delapidação e abandono, depois de ter experimentado um programa integrado de restauro e recuperação, o Mosteiro de São Martinho de Tibães prepara-se para iniciar um capítulo essencial no seu processo de reabilitação. Com uma origem cujas primeiras referências remontam ao início do século XI, (e de forma não documentada à época dos Suevos e de São Martinho de Dume, no século VI), com traços arquitectónicos dominantes que correspondem às remodelações empreendidas ao longo dos séculos XVII e XVIII, o imponente complexo monástico assiste no presente à conclusão dos trabalhos levados a cabo na Ala Sul, Noviciado e Claustro do Refeitório, este último e parte das alas Sul e Nascente destruídos por um grande incêndio no final do século XIX, já depois da extinção das ordens religiosas em Portugal. Como corolário destas novas valências e percursos expositivos o Mosteiro vai voltar a ser novamente um espaço habitado, passando a albergar uma pequena comunidade religiosa feminina responsável pela manutenção de uma hospedaria e de um restaurante abertos ao público.
Esta expectativa de primavera em Tibães assume neste projecto de intervenção artística um efeito galvanizante que intensifica o silêncio e a sobreposição de vivências que caracterizaram a organicidade beneditina e que abrangem ainda mais de um século de propriedade privada na fase anterior à sua aquisição pelo estado em 1986. Da ruralidade envolvente ao acolhimento dos inúmeros artistas e artífices que deixaram no património edificado e na cerca conventual o cosmopolitismo da sua passagem, do relacionamento com a comunidade de inserção às responsabilidades administrativas da Congregação, da complexidade das zonas de serviço ao desenho cuidado dos locais de oração, reunião, estudo e contemplação, do seguimento dos preceitos da Regra à concretização dos seus pressupostos pedagógicos de ensino e evangelização, da ênfase dada ao silêncio e ao trabalho manual à preocupação com os malefícios da “murmuração”, do papel desempenhado no passado aos princípios de incorporação e interpretação museológicos actuais, há um profundo diálogo e mediação entre as necessidades e desafios de ordem prática e a vocação espiritual que orientou a construção e a preservação da instituição que estabeleceu aqui um quotidiano de abnegação individual e opulência colectiva, de sacrifício, persistência e dedicação.
Sintetizado no lema “ora e labora” da organização fundada sobre a autoridade do Abade e da Regra de São Bento ou na coexistência da propriedade agrícola particular com o funcionamento da Igreja Paroquial e, mais recentemente, na convivência entre essa realidade marcadamente rural e imbuída de uma religiosidade festiva e popular e as novas funções e exigências museológicas, há em Tibães uma conjugação intensa das dimensões do temporal e do sagrado que aí se interceptam admiravelmente. E que constituem os pressupostos de intervenção que impregnam a identidade deste projecto de habituação ao espaço na contemporaneidade. Combinando o labor produtivo ou conducente ao assombro como objecto de concretização e fruição tangível ao próprio assombro enquanto finalidade directora e crença espiritual na transcendência do invisível.
É com esse enquadramento perceptivo que os visitantes da exposição são convidados a percorrer, paralelamente aos percursos permanentes do programa de visita, as derivas e desdobramentos habitados, vincados pela água e pela liturgia das horas “que ritma a embarcação sanguínea”(*). Na expectativa do reconhecimento e da surpresa na respiração do outro. Na navegação suspensa sobre o infinito “de quem avista uma praça fora do mundo” (*).
(*) Daniel Faria, poeta e monge beneditino falecido em 1999
20/03/2008
20/01/2008
22/12/2007
12/12/2007
O amor em tempos de angústia
A localização, apesar de relativamente próxima do centro da cidade, tem já traços de subúrbio. O Espaço, que parece ter sido anteriormente uma oficina (ou armazém) fica nas traseiras dos prédios da Rua do Caires, identificando-se pelo abat-jour colocado numa janela, reminiscente do tempo em que o edifício albergou uma casa de putas.
No marasmo cultural bracarense, a Censura Prévia propõe um projecto muito ousado e diferenciado. É notória a intenção de mexer com as coisas e com as pessoas, abrindo o Espaço à intervenção e participação, mas a localização periférica e o carácter marcadamente alternativo da programação dificilmente permitirão cativar um público alargado.
A audácia e a persistência necessárias para manter um projecto desta natureza em Braga e a qualidade das propostas apresentadas são os aspectos mais relevantes e admiráveis. Por outro lado, a fraca divulgação, a irregularidade da programação, o deficiente funcionamento do bar e a decoração/aspecto geral, poderiam ser melhorados.
O Espaço tem sido palco de inúmeros concertos de variadas correntes musicais, exposições/instalações, festas com DJ e VJ e o ciclo de mini-espectáculos “Para ficar a perceber ainda menos sobre o amor” nos últimos três dias de cada mês. Os espectáculos apresentados são da autoria de elementos da Censura Prévia ou de outros criadores que mantêm alguma afinidade com o projecto.
Nos dias 29, 30 e 31 de Julho foi apresentado o 6.º mini-espectáculo “Para ficar a perceber ainda menos sobre o amor”, uma criação e interpretação colectiva de seis elementos da Censura Prévia. Com uma notável capacidade de improvisar com recursos muito escassos e de baixo orçamento - objectos comuns como cadeiras, cordas e molas, sacos, bidão, mangueira e um escadote, conseguem obter um brutal efeito cenográfico e sensorial.
Ao longo do espectáculo assistimos a solos e a interacções de grupo, aos momentos de acalmia sucede-se a maior desbunda, como no “Simple Men” de Hal Hartley onde os actores, de repente, começam a dançar freneticamente “Kool Thing” dos Sonic Youth. Os sacos de plástico cheios de líquido pendurados no tecto pingam ininterruptamente através de pequenos buracos até revelarem o que escondem no fundo. O capuchinho vermelho espera entediada pelo lobo mau que nunca aparece. Também há ironia indolente sobre os clichés dos clássicos shakesperianos, à pancada de Molière respondem com o teatro às três pancadas, iconoclastas e a borrifarem-se para a mecanização ensaiada das cenas.
Ouve-se música de Aphex Twin, Clã, Radiohead, Nancy Sinatra, kizomba e kuduro. Uma mangueira jorra água até inundar completamente a sala, o dilúvio mas sem o efeito purificador. Os actores desnudam-se, chapinham e rebolam na água, estatelam-se desamparadamente e partem os dentes no chão, inebriados, eufóricos e hedonistas.
O amor de todas as maneiras e feitios, sempre inexplicável e irracional – um gajo estranho com travo amargo e sem finais felizes.
Textos de Ana Arqueiro. António Gregório. Eva Malaínho. Homero. Molière e Sandra Andrade.
Criação e interpretação de Ana Arqueiro. Clara Alves de Sousa. Eva Malaínho. Luís Cardoso. romeulebres e Sandra Andrade.
fotos: Teresa Luzio
08/12/2007
23/11/2007
Xeque à Quinta dos Peões
Foi anunciado recentemente o lançamento de um concurso de ideias para a Quinta dos Peões localizada em frente ao Campus de Gualtar da Universidade do Minho. Anteriormente, a Quinta era ocupada pelo Núcleo de Melhoramento do Milho do Instituto de Investigação Agrária, estando classificada como Reserva Agrícola Nacional. Seria do mais elementar bom senso que quando o Ministério da Agricultura prescindisse da Quinta, ela fosse para as mãos da Universidade do Minho. No entanto, em 1995 um Governo incompetente tratou de a vender em hasta pública por 900.000 contos à empresa Rodrigues & Névoa. A polémica em torno do negócio foi imediata devido ao receio sobre o destino que a imobiliária daria aos terrenos, numa zona já fortemente estigmatizada em termos de construção, tráfego rodoviário e poluição.
Ao longo dos anos, o processo da Quinta dos Peões tem sido objecto de sucessivas rondas de negociação entre o proprietário, a Câmara e a UM. Em traços gerais, daí resultou um acordo/protocolo onde a imobiliária cederia uma parcela de cerca de 4 hectares à Universidade como contrapartida para urbanizar/construir no terreno.
Entretanto, a Quinta tem sido o palco das últimas edições do Enterro da Gata, aparecendo periodicamente na comunicação social ora porque serve de depósito ilegal de detritos/areias que desqualificam e degradam o terreno, ou porque para aí está prevista a construção da nova sede da AAUM, ou por fim porque é um dos locais propostos para possível localização do Instituto Ibérico de Investigação e Desenvolvimento, que acabou por ir para os terrenos da Bracalândia.
Em finais de 1996 propus que a Quinta dos Peões revertesse de novo para o domínio público e fosse transformada em jardim botânico/parque da cidade. Esta solução sempre me pareceu a que melhor salvaguardava os interesses da UM e dos bracarenses:
- um jardim botânico dotado de grande biodiversidade, com estufas, espaços ajardinados com todo o tipo de árvores, plantas e flores, cursos de água, percursos pedestres e de manutenção, onde fosse possível desfrutar de uma paisagem natural aprazível, de tranquilidade e ar puro. Um espaço onde fosse possível passear, descansar, tirar fotografias, estudar, fazer piqueniques, etc.
- com esta solução poderiam ser aproveitadas as infra-estruturas e o know-how dos técnicos do Núcleo de Melhoramento do Milho, em conjunto com diversos Departamentos da UM para mostrar aos jovens e à população em geral a investigação e a ciência de forma pedagógica e lúdica;
- a Quinta dos Peões serviria de pulmão / zona tampão para o campus da Universidade podendo ser utilizada pela comunidade como local de investigação, de estudo, prática de desporto e zona de lazer;
- o jardim botânico / parque da cidade seria um espaço de interface / aproximação entre a Universidade e a cidade de Braga invertendo o distanciamento existente.
O concurso de ideias lançado pela empresa Rodrigues & Névoa, anunciado no Senado Universitário dando conta da participação de docentes do Dep. Arquitectura da UM no processo de selecção das propostas é uma forma ardilosa de facilitar os interesses da conhecida (nem sempre pelos melhores motivos) imobiliária bracarense. A empresa só poderá rentabilizar o seu investimento na Quinta dos Peões se puder edificar, mas sabe de antemão que a sua intervenção suscitará sempre polémica, pelo que pretende minimizar os seus efeitos, utilizando a capa da Universidade para caucionar o processo, dando-lhe em troca umas migalhas de terreno. A UM pela voz do seu Reitor diz-se muito sensibilizada com a preocupação do proprietário em salvaguardar “o ambiente e a vivência da comunidade académica”, revelando um pragmatismo excessivamente realista que considera umas migalhas melhores que nada.
Ao longo deste processo, a Câmara sempre afirmou que pouco podia fazer, a não ser servir de intermediário e que a responsabilidade era toda do Governo que alienou o terreno. Sendo certo que não foi a Câmara a fonte original do problema, Mesquita Machado tinha obrigação de afirmar, de forma inequívoca, que não viabilizaria qualquer construção no local, frustrando qualquer veleidade da imobiliária. Os superiores interesses da cidade e dos bracarenses assim o exigiam.
Ao longo dos anos, o processo da Quinta dos Peões tem sido objecto de sucessivas rondas de negociação entre o proprietário, a Câmara e a UM. Em traços gerais, daí resultou um acordo/protocolo onde a imobiliária cederia uma parcela de cerca de 4 hectares à Universidade como contrapartida para urbanizar/construir no terreno.
Entretanto, a Quinta tem sido o palco das últimas edições do Enterro da Gata, aparecendo periodicamente na comunicação social ora porque serve de depósito ilegal de detritos/areias que desqualificam e degradam o terreno, ou porque para aí está prevista a construção da nova sede da AAUM, ou por fim porque é um dos locais propostos para possível localização do Instituto Ibérico de Investigação e Desenvolvimento, que acabou por ir para os terrenos da Bracalândia.
Em finais de 1996 propus que a Quinta dos Peões revertesse de novo para o domínio público e fosse transformada em jardim botânico/parque da cidade. Esta solução sempre me pareceu a que melhor salvaguardava os interesses da UM e dos bracarenses:
- um jardim botânico dotado de grande biodiversidade, com estufas, espaços ajardinados com todo o tipo de árvores, plantas e flores, cursos de água, percursos pedestres e de manutenção, onde fosse possível desfrutar de uma paisagem natural aprazível, de tranquilidade e ar puro. Um espaço onde fosse possível passear, descansar, tirar fotografias, estudar, fazer piqueniques, etc.
- com esta solução poderiam ser aproveitadas as infra-estruturas e o know-how dos técnicos do Núcleo de Melhoramento do Milho, em conjunto com diversos Departamentos da UM para mostrar aos jovens e à população em geral a investigação e a ciência de forma pedagógica e lúdica;
- a Quinta dos Peões serviria de pulmão / zona tampão para o campus da Universidade podendo ser utilizada pela comunidade como local de investigação, de estudo, prática de desporto e zona de lazer;
- o jardim botânico / parque da cidade seria um espaço de interface / aproximação entre a Universidade e a cidade de Braga invertendo o distanciamento existente.
O concurso de ideias lançado pela empresa Rodrigues & Névoa, anunciado no Senado Universitário dando conta da participação de docentes do Dep. Arquitectura da UM no processo de selecção das propostas é uma forma ardilosa de facilitar os interesses da conhecida (nem sempre pelos melhores motivos) imobiliária bracarense. A empresa só poderá rentabilizar o seu investimento na Quinta dos Peões se puder edificar, mas sabe de antemão que a sua intervenção suscitará sempre polémica, pelo que pretende minimizar os seus efeitos, utilizando a capa da Universidade para caucionar o processo, dando-lhe em troca umas migalhas de terreno. A UM pela voz do seu Reitor diz-se muito sensibilizada com a preocupação do proprietário em salvaguardar “o ambiente e a vivência da comunidade académica”, revelando um pragmatismo excessivamente realista que considera umas migalhas melhores que nada.
Ao longo deste processo, a Câmara sempre afirmou que pouco podia fazer, a não ser servir de intermediário e que a responsabilidade era toda do Governo que alienou o terreno. Sendo certo que não foi a Câmara a fonte original do problema, Mesquita Machado tinha obrigação de afirmar, de forma inequívoca, que não viabilizaria qualquer construção no local, frustrando qualquer veleidade da imobiliária. Os superiores interesses da cidade e dos bracarenses assim o exigiam.
(também publicado na edição de 28/11/2007 do jornal Diário do Minho)
03/10/2007
Fast Forward Braga
Vai realizar-se nos próximos dias 19 e 20 de Outubro a 2.ª edição do Fast Forward Film Festival - Portugal organizado pela Velha-a-Branca. Este Festival é a versão portuguesa do evento com o mesmo nome originário de Chicago, realizando-se também uma edição na Irlanda.O conceito inerente ao Festival é simultaneamente simples, barato e estimulante: é um festival/concurso de curtas-metragens onde os participantes têm que realizar um filme em menos de 24h, em vídeo digital. O filme deve ter, no máximo, 3 minutos de duração, sendo os temas divulgados pela organização no início do certame. Os trabalhos têm que ser realizados e entregues até ao final do dia seguinte.
A edição anterior do Festival excedeu as melhores expectativas no que toca à adesão de concorrentes e de público, tendo sido apresentados mais de três dezenas de filmes vindos de equipas de todo o país.
Ao contrário de outros festivais de cinema onde as pessoas são meros espectadores passivos do programa proposto pela organização, o Fast Forward desafia-nos para uma participação activa. Os filmes a exibir no Festival são os que forem submetidos ao concurso e serão eles que determinarão o sucesso do evento.
É também um Festival democrático e popular, podendo participar os jovens e os menos jovens, os profissionais e aqueles que vão realizar um filme pela primeira vez, todos em pé de igualdade. A inscrição no festival implica apenas o pagamento de um valor simbólico por cada equipa participante. É também pouco exigente em termos de requisitos técnicos, sendo mais valorizadas as boas ideias e a capacidade de realizá-las rapidamente.
O Festival tem o mérito de incentivar a criação de novas obras e o aparecimento de novos criadores numa área com forte componente criativa e tecnológica. Paralelamente ao Festival realizam-se workshops de edição de imagem e de produção áudio, reforçando as competências técnicas dos interessados e fomentando uma nova dinâmica na área do cinema, vídeo e multimédia. Este tipo de iniciativas contribui para a criação da massa crítica indispensável no quadro da sociedade do conhecimento.
Acredito que só uma população criativa e tecnologicamente evoluída será capaz de atrair investimentos e empresas inovadoras que criarão novos e melhores postos de trabalhos, contribuindo assim para uma maior competitividade e a melhoria das condições de vida.
O Fast Forward é uma das propostas mais interessantes e com maior potencial surgidas em Braga nos últimos anos. Surpreendentemente (ou não), as entidades locais estão alheadas do Festival, sendo a Adobe Systems, uma multinacional sem qualquer interesse especial por Braga, o maior patrocinador do evento.

15/09/2007
O Melhor Café
O livro “O Melhor Café” editado em finais de 1996 constitui uma bela homenagem à Brasileira bracarense feita através das fotografias de Alfredo Cunha e das palavras de Pedro Rosa Mendes.O livro abre com um texto, o mais longo de todos, que enquadra historicamente o surgimento d’A Brasileira em 17 de Março de 1907, iniciativa de Adolpho de Azevedo, próspero negociante do Porto. Nesta fase, a escrita segue de perto a pesquisa documental feita pelo autor, de onde transparece a Braga imutável, ontem como hoje, «a província como reserva cinegética do aborrecimento e os cafés como única alternativa de evasão à boçalidade medieval.» A Brasileira veio juntar-se a um punhado de outras casas de café e bilhares, onde os bracarenses buscavam convívio e jogo.
A ambiência económica, social e política da cidade no início do séc. XX surge enredada no quotidiano do café. O autor utiliza Joaquim Chaves (1903-1977), o cliente mais famoso da Brasileira, com direito a placa de mármore na parede, para servir de cicerone em várias narrativas sobre as décadas de Salazar e da PIDE.
Os textos aparecem intercalados com as fotografias, nunca se misturam. A um bloco de escrita segue-se um bloco de fotografias a preto e branco, sem qualquer tipo de texto ou legenda. A cada imagem está reservada uma página inteira, aparecendo mais esporadicamente uma fotografia a estender-se por duas páginas.
As imagens foram recolhidas em cinco dias do Verão de 1996, e retratam a fauna frequentadora do café, os empregados, os velhotes, o engraxador de sapatos e também as idiossincrasias do espaço e os pormenores do mobiliário. As fotos dos andares de cima, onde estão depositados os velhos bilhares e o mobiliário em desuso, são fantasmas dum tempo remoto que já não pode ser reencontrado.Os quatro textos seguintes são curtos e têm um registo mais memorialistico, fruto das conversas desenroladas à mesa do café. Pretende-se oferecer múltiplos pontos de vista: do patrão, do empregado com mais de três décadas de casa, da velha viúva que é cliente diária há mais de 40 anos e fica perdida quando a Brasileira encerra para descanso semanal, e a Brasileira como ponto de encontro antes de jantar duma certa elite cultural, que tem como regra de ouro nunca se sentar na parte de baixo do café, embora não saiba explicar porquê?...
Das veredas da memória surgem histórias como a da actual Brasileira já ter sido dois cafés, em cima a Brasileira, e em baixo, pela Rua de S. Marcos o Café Sporting. O aparecimento da Brasileira Nova, em frente do outro lado da rua, sendo a Rua S. Marcos apelidada de “linha Maginot”: de um lado os progressistas, do outro os germanófilos.
As várias fases do café, dos padres Vaz, e dos outros clérigos em dias de feira, os clientes diários com horário certo e escrupulosamente cumprido, as coscuvilhices sussurradas e a maledicência longamente cultivada, o relance embaciado para o rio de gente que escoa pela rua abaixo, etc.
No ano da comemoração do centenário da Brasileira, lamenta-se que esta obra esteja indisponível nas livrarias, pois é um retrato de valor inestimável dum determinado microcosmos que metaforiza a sociedade bracarense do último século.
Alfredo Cunha e Contexto Editora, 1996
Textos de Pedro Rosa Mendes
Impresso em Novembro de 1996
116 págs. - 24,2 x 29 cm
No ano da comemoração do centenário da Brasileira, lamenta-se que esta obra esteja indisponível nas livrarias, pois é um retrato de valor inestimável dum determinado microcosmos que metaforiza a sociedade bracarense do último século.
Alfredo Cunha e Contexto Editora, 1996Textos de Pedro Rosa Mendes
Impresso em Novembro de 1996
116 págs. - 24,2 x 29 cm
13/09/2007
Fundação Utópica
A Fundação Cultural Bracara Augusta foi criada em 1996 pela Câmara de Braga, a Universidade do Minho, a Universidade Católica e o Cabido de Braga com a finalidade de realizar e/ou apoiar iniciativas de carácter cultural e social. Na realidade, nunca percebi muito bem para que é que serve esta Fundação, que tem como Presidente Maria do Céu Sousa Fernandes e como Presidente do Conselho de Administração (??) o inevitável Rui Madeira.Anunciaram agora o lançamento de um novo ciclo de conferências, a primeira das quais subordinada ao tema: “A Utopia: uma leitura actual”. Sobre o tema Rui Madeira afirma: “os seres humanos não podem viver fora das utopias. É o que nos alimenta”. Maria do Céu Fernandes, mais comedida, questiona se “será possível um mundo novo?”.
Nada me deixa mais tranquilo e esperançado num futuro melhor do que ver a bandeira da utopia empunhada por tão extremosas mãos.
(foto sacada no site do Diário do Minho.)
05/09/2007
A BRASILEIRA COM CEM*
O café “A Brasileira” foi inaugurado em Março de 1907, comemorando este ano o seu centésimo aniversário. É a altura certa para se fazer uma homenagem a um dos cafés mais emblemáticos e com mais história da cidade de Braga. Embora aberto a todos, o simples facto de, por opção, uma pessoa não o frequentar, frequentar esporadicamente ou assiduamente, é uma tomada de posição, consciente ou inconsciente, de cariz social, cultural e afectiva. O cliente da Brasileira, está a inscrever, a filiar a sua opção numa determinada geografia humana da cidade.O projecto que propomos é um convite aos frequentadores do café, para realizarem um trabalho com duas páginas, no máximo, sobre o que “A Brasileira” representa para cada um de nós. Os trabalhos podem ser textos, desenhos, fotografias, banda-desenhada, etc., com os quais se editará um fanzine colectivo, de número único, cuja publicação está prevista para o mês de Outubro.
Os trabalhos devem ser entregues até 31 de Agosto de 2007, com a indicação do nome(s) do(s) autor(es), no café “A Brasileira” ou na “Velha- a-Branca” (loja do r/c), onde existe uma pasta para a recolha dos trabalhos. Podem também entregar o trabalho em formato digital, enviando-o para um dos seguintes endereços: aacs@portugalmail.pt - ricardofiuza@clix.pt
Trabalhos recebidos de: João Catalão, Nuno Gomes, Jorge Moreira, Sebastião Peixoto, Bento Duarte, Vítor Costa, Vítor Silva, Paulo Bonito, Ricardo Fiúza, Alexandre Gonçalves, Madalena Dória, Esmeralda Duarte, César Taíbo, Paulo Trindade, Nuno Cláudio, Sofia Saldanha, Adriano Faria, Pedro Guimarães, Nuna Poliana, Kid, Helena Carneiro, Cláudia Bueso, Manuela & Milucha, Miguel Meira, Paulo Nogueira.
Última chamada para: Alexandre Cristóvam, Paulo Pi, Luís Tarroso, Carlos Veloso, José Delgado, Abel, Rui, Carlos Knorr, Pedro Fafe, Roque, Rui Mendes, Camilo, Vânia, Eduardo Bueso, Rui Pires, Carlos Corais, Adelina Lopes, João Estrada, Betinha, Teresa Silva, Marta Catarino, Rita Costa, Iva Dias, Ana Aguiar, Catarina Miranda, Joana Cordeiro, Nandão, Rui Oliveira, Mª Jesus Condeço, Rui Carvalho, Francisco Areias, João Paulo Moreira, Jorge Ribeiro, Inês Vinagre, Jaime Manso, entre outros.
*(título provisório)
02/09/2007
Arte Total
27/08/2007
Uma estátua em bolandas
Em reunião recente, as Juntas de Freguesia urbanas de Braga tiveram oportunidade de expressar os seus anseios e ambições a Mesquita Machado. Do rol apresentado ao Presidente da Câmara, a pretensão do Presidente da Junta da Cividade de retirar a estátua de D. João Peculiar do Largo de S. Paulo tem merecido ampla repercussão pública.
O Presidente da Junta da Cividade, Peixoto dos Santos, alega dois motivos principais para justificar a sua pretensão, um de ordem estética, outro de ordem moral: - a escala da estátua não se adequa ao Largo de S. Paulo, ficando “perdida” no meio daquele espaço; - o báculo de forma fálica, desagrada à população em geral e às religiosas que passam frequentemente no local, em particular.
Ao longo do tempo tem ocorrido diversas polémicas em redor de estátuas, monumentos e outra iconografia colocada em lugares públicos. A polémica aparece, invariavelmente, associada à Igreja: - todos se recordam dos casos das pirâmides do monumento ao Papa João Paulo II, da projectada estátua do Cónego Melo, dos painéis heréticos do altar da Cripta do Sameiro e agora a estátua do Arcebispo D. João Peculiar.
Não existindo nenhuma imagem conhecida do antigo Arcebispo de Braga, contemporâneo do rei D. Afonso Henriques, o escultor Raul Xavier deixou a sua imaginação criativa à solta na execução do trabalho. A estátua de corpo inteiro em tamanho real apresenta diversas particularidades, como sejam os traços fisionómicos de “irredutível gaulês”, uma mitra minúscula que mais parece um elmo de guerreiro, as mangas arregaçadas, e com especial destaque o báculo que tem uma evidente forma de pénis.
A estátua foi encomendada pela Câmara de Braga para ser colocada no Largo D. João Peculiar, contíguo à Igreja da Misericórdia e à entrada lateral da Sé Catedral. O pedestal em pedra esteve mesmo colocado no local durante imenso tempo, mas a estátua nunca lá foi colocada. Compreende-se bem porquê.
Qual não terá sido a reacção das autoridades eclesiásticas quando viram a estátua pela primeira vez?...Rapidamente previram a polémica que causaria inserida num dos locais mais nobres e visitados da cidade. Para mais, quando a polémica sobre a estátua do Cónego Melo ainda estava bem acesa. De forma prudente, as autoridades promotoras da estátua decidiram deslocá-la para um local mais discreto.
Como o Largo de S.Paulo tinha sido transformado numa eira, que é a marca registada das intervenções da Câmara nos Largos e Praças da cidade e não havendo no local qualquer adorno ou chafariz foi lá inaugurada em 05 de Dezembro de 2003 a estátua de D. João Peculiar. À parte alguns comentários jocosos e risinhos trocistas dos observadores mais atentos, a coisa não provocou grande alarido.
O Presidente da Junta da Cividade, Peixoto dos Santos, alega dois motivos principais para justificar a sua pretensão, um de ordem estética, outro de ordem moral: - a escala da estátua não se adequa ao Largo de S. Paulo, ficando “perdida” no meio daquele espaço; - o báculo de forma fálica, desagrada à população em geral e às religiosas que passam frequentemente no local, em particular.
Ao longo do tempo tem ocorrido diversas polémicas em redor de estátuas, monumentos e outra iconografia colocada em lugares públicos. A polémica aparece, invariavelmente, associada à Igreja: - todos se recordam dos casos das pirâmides do monumento ao Papa João Paulo II, da projectada estátua do Cónego Melo, dos painéis heréticos do altar da Cripta do Sameiro e agora a estátua do Arcebispo D. João Peculiar.
Não existindo nenhuma imagem conhecida do antigo Arcebispo de Braga, contemporâneo do rei D. Afonso Henriques, o escultor Raul Xavier deixou a sua imaginação criativa à solta na execução do trabalho. A estátua de corpo inteiro em tamanho real apresenta diversas particularidades, como sejam os traços fisionómicos de “irredutível gaulês”, uma mitra minúscula que mais parece um elmo de guerreiro, as mangas arregaçadas, e com especial destaque o báculo que tem uma evidente forma de pénis.
A estátua foi encomendada pela Câmara de Braga para ser colocada no Largo D. João Peculiar, contíguo à Igreja da Misericórdia e à entrada lateral da Sé Catedral. O pedestal em pedra esteve mesmo colocado no local durante imenso tempo, mas a estátua nunca lá foi colocada. Compreende-se bem porquê.
Qual não terá sido a reacção das autoridades eclesiásticas quando viram a estátua pela primeira vez?...Rapidamente previram a polémica que causaria inserida num dos locais mais nobres e visitados da cidade. Para mais, quando a polémica sobre a estátua do Cónego Melo ainda estava bem acesa. De forma prudente, as autoridades promotoras da estátua decidiram deslocá-la para um local mais discreto.
Como o Largo de S.Paulo tinha sido transformado numa eira, que é a marca registada das intervenções da Câmara nos Largos e Praças da cidade e não havendo no local qualquer adorno ou chafariz foi lá inaugurada em 05 de Dezembro de 2003 a estátua de D. João Peculiar. À parte alguns comentários jocosos e risinhos trocistas dos observadores mais atentos, a coisa não provocou grande alarido.
Entendo que é importante reflectir e discutir sobre o espaço público e as diversas opções para a sua ocupação. No entanto, estranho que só agora, passados quase quatro anos da inauguração, o Presidente da Junta
venha expressar publicamente o seu desagrado. Mais se estranha ainda que tenha usado uma imagem do Largo de S. Paulo com a estátua enquadrada para a capa de um folheto editado recentemente pela Junta.
venha expressar publicamente o seu desagrado. Mais se estranha ainda que tenha usado uma imagem do Largo de S. Paulo com a estátua enquadrada para a capa de um folheto editado recentemente pela Junta.O Presidente da Junta da Cividade, em nome da harmonia do local e dos bons costumes, quer que as autoridades competentes retirem a estátua do local e a recoloquem no Largo D. João Peculiar. A Igreja, pela voz do Bispo Auxiliar D. Antonino Dias, já disse que não quer saber do caso, que “a Câmara é que encomendou a escultura e que a pagou. A diocese nunca foi ouvida”.
Por seu lado, Mesquita Machado além de ter pago com dinheiros do município uma estátua sem concurso, sem critério e sem gosto, ainda afirma à Agência Lusa que desconhece quem é o proprietário da estátua e, com sobranceria, “que não tem tempo a perder com essas coisas”.
Por seu lado, Mesquita Machado além de ter pago com dinheiros do município uma estátua sem concurso, sem critério e sem gosto, ainda afirma à Agência Lusa que desconhece quem é o proprietário da estátua e, com sobranceria, “que não tem tempo a perder com essas coisas”.
Peixoto dos Santos aspira obter um fontanário para substituir a estátua de D. João Peculiar. Esperemos que não receba em troca o chafariz renegado pela Junta de S. João do Souto na mesma reunião com o Presidente da Câmara.
(também publicado na edição de 29/08/2007 do jornal Diário do Minho)
Na sequência da publicação deste texto, o Presidente da Câmara de Braga assegurou ao jornal Correio do Minho (30 de Agosto) que a autarquia “não pagou, não encomendou, nem escolheu a estátua”. Esclareceu ainda que o antigo Deão do Cabido da Sé, Cónego Melo, “é que pode explicar melhor quem mandou fazer e quem a pagou”.
Estes novos desenvolvimentos merecem três comentários:
- folgo em saber que a amnésia de Mesquita Machado foi passageira;
- as novas declarações do presidente da Câmara contradizem completamente as proferidas antes por D. Antonino Dias. Isto é tanto mais grave porque se trata de um alto dignatário da Igreja Católica. Em quem podemos acreditar?;
- definitivamente, as estátuas não proporcionam grandes recordações ao Cónego Melo.
Estes novos desenvolvimentos merecem três comentários:
- folgo em saber que a amnésia de Mesquita Machado foi passageira;
- as novas declarações do presidente da Câmara contradizem completamente as proferidas antes por D. Antonino Dias. Isto é tanto mais grave porque se trata de um alto dignatário da Igreja Católica. Em quem podemos acreditar?;
- definitivamente, as estátuas não proporcionam grandes recordações ao Cónego Melo.
25/08/2007
21/08/2007
Bento Duarte
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